Duas semanas tinham passado desde o primeiro dos encontros do périplo de vinte e cinco, e o amigo Paulo publicou uma mensagem, começada por uma fala do Mestre Agostinho:
"Portugal desembarcou em todo o lado. Só falta Portugal desembarcar em Portugal.” (Agostinho da Silva, 1961).
Agostinho da Silva metaforizava a necessidade de um novo renascimento com o “desembarque” de uma nova Educação no hemisfério norte… proveniente do Sul.
Na década seguinte, na “Pedagogia da Esperança”, Freire assumia o compromisso de provar a necessidade de a esperança ter o seu espaço na Educação. E, a partir de angústias e saudades, compreendia ser preciso disciplinar as dores e os sentimentos, para que a desesperança não imperasse sobre a vida humana.
Nessa obra, Freire escreveu ser necessário desnortear, desorientar, talvez mesmo… suliar.
Tomás Morus escreveu a sua “Utopia” baseado num opúsculo de Américo Vespuci. Talvez seja necessário suliar a busca de novas utopias no Sul. Foi no Sul que Vespuci encontrou um mundo onde “todas as coisas eram comuns”, onde “cada pessoa era dona de si própria”. Foi no sul que o navegador deparou com a concretização da utopia de não haver ricos nem pobres, uma sociedade mais humanizada do que a europeia.
A América viu concretizar-se a primeira experiência utópica renascentista. Em 1530, Vasco de Quiroga, juiz e bispo de Nova Espanha, fundou um colégio conservando as línguas autóctones e proibiu a escravidão dos índios. Depois, no hiato de cinco séculos, houve um desvio de rota...
Quando quis celebrar os feitos do Gama, Camões partiu dos relatos de Caminha e achou no sul a sua “Ilha dos Amores” – suliou o canto IX, ainda que o norteasse no estilo. O épico antecipou em quatro séculos a utopia de Agostinho da Silva, também ele navegante do sul. “Utopia” deixou de ser somente um vocábulo criado a partir do grego “lugar inexistente”. O mestre Agostinho, cultor de Vieira, demonstrou ser viável no Brasil a profecia de Tomás Morus. Aliás, tratar-se-ia apenas de recuperar o viver fraterno, igualitário, que caracterizava este território, antes da chegada dos europeus.
Embora, no século XXI, fosse discutível o modelo jesuítico de educação e questionáveis as observações do Padre Vieira sobre a escravatura, será preciso não esquecer que foram os jesuítas os fundadores da comunidade dos Sete Povos das Missões. Com heróis, como Sepé Tiaraju, organizaram as comunidades indígenas, protegendo-as da escravatura e da extinção.
A sanha assassina que se abateu sobre as Missões repetir-se-ia na destruição de Canudos. Estes exemplos, tão maltratados pelos historiadores que fizeram a história dos vencedores, constituíram dramáticos prenúncios do retorno da utopia às terras do sul, cujos povos inspiraram os falanstérios, os albigenses e cátaros, a Icária e a Nova Harmonia.
Na segunda metade do século XX, bem acompanhado por Anísio, Cecília, Eurípedes, Nilde, Darcy e outros educadores do sul, o português imigrado Agostinho da Silva traduziu obras de “utópicos”, para lançar sementes de renovação na Educação.
Nos anos vinte, havia escolas “utópicas” nos brasis da Educação, lugares de ousadas transformações. E, no Norte, atento ao que acontecia no Sul da Educação, o amigo Paulo concluía o seu artigo dizendo:
“O ser humano foi à Lua, mas ainda não chegou ao outro. À outra. Às extraordinárias descobertas científicas não há um equivalente em termos humanos, de vermos o/a outro/a enquanto semelhante e de o/a vermos enquanto aliado/a.
A Educação não é uma fórmula. A educação é um ato coletivo."
