A segunda guerra acabara há meia dúzia de anos. A fome, a tuberculose, a miséria alastravam no Portugal de Salazar. A Escola do livro único acolhia aqueles que escapavam ao duro trabalho infantil. E o professor Cassiano gritava a plenos pulmões:“Vá lá! Todos em fila! Miguel, põe-te quieto! Endireita-te! Peito para fora! Vá!
Caladinhos! Sentido! Marchar! Um, dois, um, dois, um, dois...”
“Somos pequenos lusitos, mas já firmes e leais. Amamos e respeitamos nossos chefes, nossos pais...” – e, mal se dissipavam os ecos dos hinos da ditadura e se baixava o braço da saudação fascista, logo vinha a sequência didática:
“Pai nosso, Ave-maria, Salve-rainha…
Leitura, Cópia Ditado, Redação (intervalo) Contas, Problemas, Correções, reguadas (a que, ironicamente, chamavam “bolos”).
No Portugal democrático, já não se cantava o hino e quase não havia castigos corporais. Mantinha-se a “sequência didática” travestida de aulas invertidas, enfeitadas de power point. E, em muitas escolas, a fila, os gritos, a mesmice.
Meio século após a ditadura e do início do “disruptivo” Fazer a Ponte, as escolas “normais” continuavam a negar o direito à educação a milhões de alunos. A violência explícita dera lugar a décadas do exercício de violência simbólica. E, nos idos de vinte, reaparecia mais explícita, no estertor do sistema de ensinagem.
O Instagram dava notícia de que uma professora fora atacada e esfaqueada por três alunos, ao que dizia o diretor, “sem histórico de agressividade”:
“A brutalidade que atingiu a Escola em Caxias do Sul, escancara um problema que muitos fingem não ver: a escalada da violência dentro das salas de aula.
Três alunos do 7º ano premeditaram e esfaquearam uma professora. A motivação? Vingança. Um dos adolescentes já havia sido advertido pela escola por comportamento agressivo. No dia anterior, sua mãe foi chamada para conversar sobre sua conduta. Como resposta, ele e outros dois colegas atacaram a primeira professora que encontraram”.
Alguns comentários diferiam daqueles que, outrora, enfeitavam muros de lamentações. Os professores começavam a tomar consciência da falência de um sistema, que, por décadas, lhes era imposto:
“Não foi por causa da prova. Foi por tudo que veio antes dela. E não dá pra continuar fingindo que não vê.
Esse carrossel não é sobre um caso. É sobre um sistema inteiro que está desmoronando. Em silêncio. Todos os dias.
Reflexo da sociedade e da família. Vai tudo pra escola. Ótimo texto. Mas a triste realidade é que não houve motivação para o crime, não foi prova, não foi desentendimento. Trabalho na escola. Fiquei ao lado da minha colega até o SAMU chegar. Eu que os avisei, inclusive.
Se isso te atravessa, compartilha. Não vamos deixar esse assunto morrer num post”.
“É um sintoma de algo muito maior. Um grito contra um sistema que adoece a todos. O que aconteceu naquela sala de aula é reflexo de algo muito maior. Precisamos falar disso com coragem.
O colapso é invisível. E nenhuma escola está imune. A situação das escolas é caótica.
O problema começa quando se exige que os professores sigam um modelo do século passado. A escola está desmoronando num grito mudo. Ignorar isso é perpetuar a falência de um sistema.
Até quando vamos esperar para agir? Qual passo real pode ser dado hoje?”
Eu diria: qual o passo que deveria ser dado, há mais de um século?
Não havia soluções milagrosas, havia a necessidade de assumir um compromisso ético com a Educação. E de, diariamente, guardar alguns instantes de silêncio, em memória das vítimas do “sistema” – para não se matar memórias.
Caladinhos! Sentido! Marchar! Um, dois, um, dois, um, dois...”
“Somos pequenos lusitos, mas já firmes e leais. Amamos e respeitamos nossos chefes, nossos pais...” – e, mal se dissipavam os ecos dos hinos da ditadura e se baixava o braço da saudação fascista, logo vinha a sequência didática:
“Pai nosso, Ave-maria, Salve-rainha…
Leitura, Cópia Ditado, Redação (intervalo) Contas, Problemas, Correções, reguadas (a que, ironicamente, chamavam “bolos”).
No Portugal democrático, já não se cantava o hino e quase não havia castigos corporais. Mantinha-se a “sequência didática” travestida de aulas invertidas, enfeitadas de power point. E, em muitas escolas, a fila, os gritos, a mesmice.
Meio século após a ditadura e do início do “disruptivo” Fazer a Ponte, as escolas “normais” continuavam a negar o direito à educação a milhões de alunos. A violência explícita dera lugar a décadas do exercício de violência simbólica. E, nos idos de vinte, reaparecia mais explícita, no estertor do sistema de ensinagem.
O Instagram dava notícia de que uma professora fora atacada e esfaqueada por três alunos, ao que dizia o diretor, “sem histórico de agressividade”:
“A brutalidade que atingiu a Escola em Caxias do Sul, escancara um problema que muitos fingem não ver: a escalada da violência dentro das salas de aula.
Três alunos do 7º ano premeditaram e esfaquearam uma professora. A motivação? Vingança. Um dos adolescentes já havia sido advertido pela escola por comportamento agressivo. No dia anterior, sua mãe foi chamada para conversar sobre sua conduta. Como resposta, ele e outros dois colegas atacaram a primeira professora que encontraram”.
Alguns comentários diferiam daqueles que, outrora, enfeitavam muros de lamentações. Os professores começavam a tomar consciência da falência de um sistema, que, por décadas, lhes era imposto:
“Não foi por causa da prova. Foi por tudo que veio antes dela. E não dá pra continuar fingindo que não vê.
Esse carrossel não é sobre um caso. É sobre um sistema inteiro que está desmoronando. Em silêncio. Todos os dias.
Reflexo da sociedade e da família. Vai tudo pra escola. Ótimo texto. Mas a triste realidade é que não houve motivação para o crime, não foi prova, não foi desentendimento. Trabalho na escola. Fiquei ao lado da minha colega até o SAMU chegar. Eu que os avisei, inclusive.
Se isso te atravessa, compartilha. Não vamos deixar esse assunto morrer num post”.
“É um sintoma de algo muito maior. Um grito contra um sistema que adoece a todos. O que aconteceu naquela sala de aula é reflexo de algo muito maior. Precisamos falar disso com coragem.
O colapso é invisível. E nenhuma escola está imune. A situação das escolas é caótica.
O problema começa quando se exige que os professores sigam um modelo do século passado. A escola está desmoronando num grito mudo. Ignorar isso é perpetuar a falência de um sistema.
Até quando vamos esperar para agir? Qual passo real pode ser dado hoje?”
Eu diria: qual o passo que deveria ser dado, há mais de um século?
Não havia soluções milagrosas, havia a necessidade de assumir um compromisso ético com a Educação. E de, diariamente, guardar alguns instantes de silêncio, em memória das vítimas do “sistema” – para não se matar memórias.
