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Luz de Tavira, 23 de abril de 2045

Sempre que me perguntavam por que trocara a engenharia pela educação, respondia:
“Quando decidimos ser professor, fazêemo-lo por uma de duas razões: ou por amor, ou por vingança. Fui para a educação por vingança. Nela fiquei por amor”.
Foi pelos meus dezessete que me propus ser missionário. Porém, um súbito exame de consciência me fez mudar de rumo. Para ser missionário, eu precisaria ser casto e humilde... e eu não era uma coisa nem outra – fui para professor.
A minha “carreira” de professor foi subitamente interrompida, quando o país precisava de “carne para canhão”. Eram três as frentes da guerra colonial. E, sabendo o regime que o vosso avô era “contra a Ditadura”, fez de um jovem estrábico... um atirador de infantaria.
Fracassou a intenção de me fazer morrer em terras africanas. E quem se “vingou” fui eu. Militar pacifista, no “25 de abril” de 74, vesti farda de combate, para ajudar a fazer a “Revolução dos Cravos”.
Educador consciente de que ninguém adormecera “fascista” no dia 24 de abril, nem acordara “democrata”, no dia 25, me lancei na senda de uma educação libertária. Pois, como diria o amigo Marcos, “os "dias de" não passam mesmo de uma efemeridade, de um analgésico para entorpecer a responsabilidade nossa de todos os dias”.
Ao cabo de meio ano de desgaste na frente de combate da Guiné, o meu amigo e inspirado poeta Miguel foi dado como “incapaz”. Ao cabo de dois anos de tratamento psiquiátrico, suicidou-se. Cansei-me de perder amigos e juntei-me a quem conspirava contra a ditadura. Isso me valeu passar por situações, que não descrevo, porque não vos quero impressionar. A minha correspondência estava vigiada – as cartas, que a Censura deixava passar, chegavam abertas e com um número no envelope. Exceto aquela que continha a convocação para prestação de serviço militar obrigatório.
A Ditadura durara 48 anos. E o “25 de abril da Educação” demorou mais e 50 anos a chegar. Em 2025, ainda vigorava uma espécie de “ditadura da burocracia”.
Meio século após uma “manhã libertadora”, presos políticos sobreviventes do tempo da Ditadura lutavam pela preservação da memória coletiva. Nos jornais, alertavam para o branqueamento do fascismo e o regresso de tentações totalitárias:
"Acreditem, foi realmente muito duro. Eu já devia estar praticamente a morrer quando eles desistiram. Portanto, viram que eu não falava" – José foi interrogado durante 21 dias e só conseguiu dormir uma noite. Foram mais de 500 horas de tortura, que deixaram marcas no corpo e na memória.
Nos idos de vinte, quando assisti à ascensão ao poder de alguém que venerava torturadores e à ascensão da extrema-direita na França, deparei com uma mensagem de WhatsApp, que dizia assim:
“Madame Le Pen pode ganhar na próxima.  Tem projetos nacionais, embora todos horrorosos. Mas já tem 41,2% dos votos. Em Portugal, a extrema direita passou de 1 para 12 deputados na Assembleia da República”.
Comentei o “post”:
“Na França, em Portugal, como nos EUA ou na Rússia, basta ficar atento ao que se fez (e se continua a fazer) da educação familiar, social e escolar, para encontrar uma primeira explicação para esse fenômeno.
Com paliativos pedagógicos mantemos um instrucionismo que agoniza, desde há mais de um século. Nem sequer criamos práticas alternativas, apenas iniciativas dispersas, quase todas, caricaturais.
Urge conceber uma Nova Construção Social de Aprendizagem e Educação. Se o não fizermos, extremismos se consolidarão, a barbárie se instalará”.
Como dissera a Mónica, “quando o Homem para de se questionar, a Humanidade para de evoluir”.

 

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Leiria, 3 de outubro de 2043

Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...