Em 1976, a Escola da Ponte celebrava 50 anos de vida. No outubro de há 70 anos, o vosso avô atravessava uma crise que quase o levou a desistir de ser professor. Preparava com esmero as suas aulas, planificava-as de véspera, para estar tão próximo quanto possível do momento. Desde há muito tempo, recusara fazer planejamentos trimestrais, ou semanais. Fazia o meu plano de aula na véspera da aula.Porém, quando, no dia seguinte, eu dava a aula planejada no dia anterior, sentia que não era eu quem ali estava. Na sala de aula eu era um clown, um ator representando um papel definido no dia anterior. Tentava gerir a imprevisibilidade, mas não era autêntico. Eu não estava ali numa relação de inteireza e profundidade. Algo ou alguém estava ausente. E, se não estava presente, era comprometida a comunicação, não conseguia criar vínculos, gerar aprendizagem.
No outubro de 76, com quatro pais, se operou a passagem de um bolorento magistercentrismo para um precário pedocentrismo. Decorridos cinquenta anos, a quase totalidade das escolas permanecia pedagogicamente estagnada. Palestrantes repetiam uma lengalenga de séculos:
“Deveremos centrar no aluno o processo de aprendizagem. ”.
Dissertavam sobre autonomia do aluno, sobre protagonismo juvenil, apelavam ao pedocentrismo, enquanto reproduziam educação bancária nas salas de aula das faculdades de educação. Curiosos visitavam a Ponte, participavam de imersões formativas na Escola Aberta, mas, depois, voltavam ao rame-rame. E havia aqueles que, ao primeiro sinal de perigo, se encolhiam, para não perder o emprego.
Após ter participado em projetos considerados inovadores, tentava ajudar a não repetir erros, a criar novas construções sociais de aprendizagem. Ao longo de meio século de tentativas de mudança educacional – quase todas frustradas – fui colhendo ensinamentos, que partilho com o eventual leitor. Aos noventa e quatro, retomo caminhos de uma práxis reconstrutora, com o único intuito de avisar os arautos de auspiciosos projetos e precaver aqueles que em prodigiosos projetos se iniciam.
Num tempo de pós-verdade, em que o medo e a ignorância imperavam, mais se fazia sentir a necessidade de se refundar a Educação. Foi um tempo de retirada. Para trás ficava meio século de dedicação à causa das crianças. Adiante viria um tempo de acompanhar projetos interrompidos. Comecei por propor um primeiro “roteiro de estudo” composto de sete perguntas, as mesmas que eu fizera em 1970, seis anos antes da “Fazer a Ponte”.
Porque aprendemos?
Onde aprendemos?
Quando aprendemos?
Com o que aprendemos e com quem?
O que precisamos aprendemos?
Como aprendemos?
Como sabemos que aprendemos?
Netos queridos, certamente, já vos apercebestes de que estou a cumprir o prometido. Esta cartinha é a primeira de uma curta série de “explicações” dadas, nos idos de vinte a todos aqueles que ousavam juntar a coragem à amorosidade, empreendendo caminhos para a emergência de novas construções sociais de aprendizagem.
Seguindo o conselho de procurar na escola mais próxima professores que ainda não tivessem morrido, educadores atentos analisavam os projetos dessas escolas e concluíam que entre o que estava escrito e o que nas salas de aula se fazia havia uma grande distância. Havia indícios de “falsidade ideológica”, de “abandono intelectual”, de “ineficiência administrativa” e até de “assédio moral” e corrupção – a maioria das escolas estava em situação irregular. Com caráter de urgência se “meteu mãos á obra”, para auxiliar os diretores das escolas a cumprir a lei.
No outubro de 76, com quatro pais, se operou a passagem de um bolorento magistercentrismo para um precário pedocentrismo. Decorridos cinquenta anos, a quase totalidade das escolas permanecia pedagogicamente estagnada. Palestrantes repetiam uma lengalenga de séculos:
“Deveremos centrar no aluno o processo de aprendizagem. ”.
Dissertavam sobre autonomia do aluno, sobre protagonismo juvenil, apelavam ao pedocentrismo, enquanto reproduziam educação bancária nas salas de aula das faculdades de educação. Curiosos visitavam a Ponte, participavam de imersões formativas na Escola Aberta, mas, depois, voltavam ao rame-rame. E havia aqueles que, ao primeiro sinal de perigo, se encolhiam, para não perder o emprego.
Após ter participado em projetos considerados inovadores, tentava ajudar a não repetir erros, a criar novas construções sociais de aprendizagem. Ao longo de meio século de tentativas de mudança educacional – quase todas frustradas – fui colhendo ensinamentos, que partilho com o eventual leitor. Aos noventa e quatro, retomo caminhos de uma práxis reconstrutora, com o único intuito de avisar os arautos de auspiciosos projetos e precaver aqueles que em prodigiosos projetos se iniciam.
Num tempo de pós-verdade, em que o medo e a ignorância imperavam, mais se fazia sentir a necessidade de se refundar a Educação. Foi um tempo de retirada. Para trás ficava meio século de dedicação à causa das crianças. Adiante viria um tempo de acompanhar projetos interrompidos. Comecei por propor um primeiro “roteiro de estudo” composto de sete perguntas, as mesmas que eu fizera em 1970, seis anos antes da “Fazer a Ponte”.
Porque aprendemos?
Onde aprendemos?
Quando aprendemos?
Com o que aprendemos e com quem?
O que precisamos aprendemos?
Como aprendemos?
Como sabemos que aprendemos?
Netos queridos, certamente, já vos apercebestes de que estou a cumprir o prometido. Esta cartinha é a primeira de uma curta série de “explicações” dadas, nos idos de vinte a todos aqueles que ousavam juntar a coragem à amorosidade, empreendendo caminhos para a emergência de novas construções sociais de aprendizagem.
Seguindo o conselho de procurar na escola mais próxima professores que ainda não tivessem morrido, educadores atentos analisavam os projetos dessas escolas e concluíam que entre o que estava escrito e o que nas salas de aula se fazia havia uma grande distância. Havia indícios de “falsidade ideológica”, de “abandono intelectual”, de “ineficiência administrativa” e até de “assédio moral” e corrupção – a maioria das escolas estava em situação irregular. Com caráter de urgência se “meteu mãos á obra”, para auxiliar os diretores das escolas a cumprir a lei.
