No início deste século, o amigo Rubem deu-me a ler um texto, que começava deste modo:"Todas as escolas têm corredores e salas de aula. As salas servem para separar as crianças...
Por que é assim? Tem de ser assim?
Quem determinou que esses são os saberes e que eles devem ser aprendidos na ordem prescrita?
Que uso fazem as crianças desses saberes na sua vida de cada dia?
Por que é necessário que todas as crianças pensem as mesmas coisas, na mesma hora, no mesmo ritmo?
As crianças são todas iguais? O objetivo da escola é fazer com que as crianças sejam todas iguais?
Por que é assim? Para que serve isso? Poderia ser de outra forma?"
Na década de oitenta, Marguerite Yourcenar isto escreveu:
"Muitas vezes me perguntei como poderia ser a educação de uma criança. Acho que seria necessário estudos básicos, muito simples, onde a criança aprendesse que existe no universo, num planeta cujos recursos terá que gerir mais tarde, que depende do ar, da água, de todos os seres vivos, e que o menor erro ou a menor violência arrisca destruir tudo.
Ele iria aprender que os homens se mataram uns aos outros em guerras que só produziram mais guerras, e que cada país organiza sua história, falsamente, para esmagar seu orgulho.
Ele seria ensinado o suficiente do passado para fazê-lo sentir-se ligado aos homens que vieram antes dele, para admirá-los onde merecem estar, sem se fazerem ídolos, nem do presente ou de um futuro hipotético.
Nós tentaríamos familiarizá-lo tanto com livros como coisas; ele saberia os nomes das plantas, conheceria os animais sem se entregar às hediondas vivissecções impostas às crianças e adolescentes muito jovens sob o pretexto da biologia.
Também lhe dariam as simples noções de moralidade sem as quais a vida na sociedade é impossível.
Há definitivamente uma maneira de falar com as crianças sobre coisas realmente importantes mais cedo do que nós."
Nos idos de vinte e cinco. uma nova geração de educadores me convidava para experienciar propostas em tudo semelhantes àquelas em que tinha gastado meio século de vida profissional.
A crise da Escola prolongava-se sem fim à vista. Passara mais de um século sobre o primeiro sinal de alerta, dado no início do século XX pelos escolanovistas. Eurípedes, Anísio, Nise, Nilde, Agostinho, Irene, Freire e outros egrégios educadores reinterpretaram o movimento escolanovista, mas somente na década de sessenta ele tomara forma concreta.
Paulo Freire assim se dirigia ao seu bom amigo Malaguzzi:
“O menino eterno pede-me, antes de eu retornar ao Brasil, que escreva algumas palavras dedicadas às meninas e aos meninos italianos. Não sei se saberia dizer algo novo a tal pedido. O que poderia dizer ainda aos meninos e às meninas deste final de século? Primeira coisa, aquilo que posso dizer em função de minha longa experiência neste mundo, é que devemos fazê-lo sempre mais bonito. É baseando-me em minha experiência que torno a dizer: não deixemos morrer a voz dos meninos e das meninas que estão crescendo”.
No abril de 2025, dizíamos adeus à Carla Rinaldi. Reggio Emilia perdia a educadora que trabalhou com Malaguzzi e dedicou a sua vida às crianças de Reggio e a milhões de crianças ao redor do planeta. O mundo da educação ficava mais pobre.
Guardei alguns instantes de silêncio em memória da minha amiga Carla e dos milhões de seres humanos a quem um malfadado sistema de ensinagem roubou o direito à Educação.
Seria necessário equipar uma nova geração, que entendesse que “temos dentro de nós a possibilidade de redesenhar a humanidade a partir da infância”.
De que estávamos à espera?
Por que é assim? Tem de ser assim?
Quem determinou que esses são os saberes e que eles devem ser aprendidos na ordem prescrita?
Que uso fazem as crianças desses saberes na sua vida de cada dia?
Por que é necessário que todas as crianças pensem as mesmas coisas, na mesma hora, no mesmo ritmo?
As crianças são todas iguais? O objetivo da escola é fazer com que as crianças sejam todas iguais?
Por que é assim? Para que serve isso? Poderia ser de outra forma?"
Na década de oitenta, Marguerite Yourcenar isto escreveu:
"Muitas vezes me perguntei como poderia ser a educação de uma criança. Acho que seria necessário estudos básicos, muito simples, onde a criança aprendesse que existe no universo, num planeta cujos recursos terá que gerir mais tarde, que depende do ar, da água, de todos os seres vivos, e que o menor erro ou a menor violência arrisca destruir tudo.
Ele iria aprender que os homens se mataram uns aos outros em guerras que só produziram mais guerras, e que cada país organiza sua história, falsamente, para esmagar seu orgulho.
Ele seria ensinado o suficiente do passado para fazê-lo sentir-se ligado aos homens que vieram antes dele, para admirá-los onde merecem estar, sem se fazerem ídolos, nem do presente ou de um futuro hipotético.
Nós tentaríamos familiarizá-lo tanto com livros como coisas; ele saberia os nomes das plantas, conheceria os animais sem se entregar às hediondas vivissecções impostas às crianças e adolescentes muito jovens sob o pretexto da biologia.
Também lhe dariam as simples noções de moralidade sem as quais a vida na sociedade é impossível.
Há definitivamente uma maneira de falar com as crianças sobre coisas realmente importantes mais cedo do que nós."
Nos idos de vinte e cinco. uma nova geração de educadores me convidava para experienciar propostas em tudo semelhantes àquelas em que tinha gastado meio século de vida profissional.
A crise da Escola prolongava-se sem fim à vista. Passara mais de um século sobre o primeiro sinal de alerta, dado no início do século XX pelos escolanovistas. Eurípedes, Anísio, Nise, Nilde, Agostinho, Irene, Freire e outros egrégios educadores reinterpretaram o movimento escolanovista, mas somente na década de sessenta ele tomara forma concreta.
Paulo Freire assim se dirigia ao seu bom amigo Malaguzzi:
“O menino eterno pede-me, antes de eu retornar ao Brasil, que escreva algumas palavras dedicadas às meninas e aos meninos italianos. Não sei se saberia dizer algo novo a tal pedido. O que poderia dizer ainda aos meninos e às meninas deste final de século? Primeira coisa, aquilo que posso dizer em função de minha longa experiência neste mundo, é que devemos fazê-lo sempre mais bonito. É baseando-me em minha experiência que torno a dizer: não deixemos morrer a voz dos meninos e das meninas que estão crescendo”.
No abril de 2025, dizíamos adeus à Carla Rinaldi. Reggio Emilia perdia a educadora que trabalhou com Malaguzzi e dedicou a sua vida às crianças de Reggio e a milhões de crianças ao redor do planeta. O mundo da educação ficava mais pobre.
Guardei alguns instantes de silêncio em memória da minha amiga Carla e dos milhões de seres humanos a quem um malfadado sistema de ensinagem roubou o direito à Educação.
Seria necessário equipar uma nova geração, que entendesse que “temos dentro de nós a possibilidade de redesenhar a humanidade a partir da infância”.
De que estávamos à espera?
