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Reggio Emilia, 20 de abril de 2045

No início deste século, o amigo Rubem deu-me a ler um texto, que começava deste modo:

"Todas as escolas têm corredores e salas de aula. As salas servem para separar as crianças...
Por que é assim? Tem de ser assim?
Quem determinou que esses são os saberes e que eles devem ser aprendidos na ordem prescrita?
Que uso fazem as crianças desses saberes na sua vida de cada dia?
Por que é necessário que todas as crianças pensem as mesmas coisas, na mesma hora, no mesmo ritmo?
As crianças são todas iguais? O objetivo da escola é fazer com que as crianças sejam todas iguais?
Por que é assim? Para que serve isso? Poderia ser de outra forma?" 
Na década de oitenta, Marguerite Yourcenar isto escreveu:
"Muitas vezes me perguntei como poderia ser a educação de uma criança. Acho que seria necessário estudos básicos, muito simples, onde a criança aprendesse que existe no universo, num planeta cujos recursos terá que gerir mais tarde, que depende do ar, da água, de todos os seres vivos, e que o menor erro ou a menor violência arrisca destruir tudo.
Ele iria aprender que os homens se mataram uns aos outros em guerras que só produziram mais guerras, e que cada país organiza sua história, falsamente, para esmagar seu orgulho.
Ele seria ensinado o suficiente do passado para fazê-lo sentir-se ligado aos homens que vieram antes dele, para admirá-los onde merecem estar, sem se fazerem ídolos, nem do presente ou de um futuro hipotético.
Nós tentaríamos familiarizá-lo tanto com livros como coisas; ele saberia os nomes das plantas, conheceria os animais sem se entregar às hediondas vivissecções impostas às crianças e adolescentes muito jovens sob o pretexto da biologia.
Também lhe dariam as simples noções de moralidade sem as quais a vida na sociedade é impossível.
Há definitivamente uma maneira de falar com as crianças sobre coisas realmente importantes mais cedo do que nós."
Nos idos de vinte e cinco. uma nova geração de educadores me convidava para experienciar propostas em tudo semelhantes àquelas em que tinha gastado meio século de vida profissional.
A crise da Escola prolongava-se sem fim à vista. Passara mais de um século sobre o primeiro sinal de alerta, dado no início do século XX pelos escolanovistas. Eurípedes, Anísio, Nise, Nilde, Agostinho, Irene, Freire e outros egrégios educadores reinterpretaram o movimento escolanovista, mas somente na década de sessenta ele tomara forma concreta.
Paulo Freire assim se dirigia ao seu bom amigo Malaguzzi:
“O menino eterno pede-me, antes de eu retornar ao Brasil, que escreva algumas palavras dedicadas às meninas e aos meninos italianos. Não sei se saberia dizer algo novo a tal pedido. O que poderia dizer ainda aos meninos e às meninas deste final de século? Primeira coisa, aquilo que posso dizer em função de minha longa experiência neste mundo, é que devemos fazê-lo sempre mais bonito. É baseando-me em minha experiência que torno a dizer: não deixemos morrer a voz dos meninos e das meninas que estão crescendo”.
No abril de 2025, dizíamos adeus à Carla Rinaldi. Reggio Emilia perdia a educadora que trabalhou com Malaguzzi e dedicou a sua vida às crianças de Reggio e a milhões de crianças ao redor do planeta. O mundo da educação ficava mais pobre.
Guardei alguns instantes de silêncio em memória da minha amiga Carla e dos milhões de seres humanos a quem um malfadado sistema de ensinagem roubou o direito à Educação.
Seria necessário equipar uma nova geração, que entendesse que “temos dentro de nós a possibilidade de redesenhar a humanidade a partir da infância”.
De que estávamos à espera?

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Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...