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Torres Vedras, 30 de abril de 2045

E lá fui mais uma vez, até junto da Laura e das suas educadoras. Decorria o conclave, para eleição de novo Papa. E não tardou que conversássemos sobre educação… religiosa.

O pai do Abel era agnóstico. E, naquele bairro, o seu filho era a única criança não batizada. Chegado o tempo de ir à escola, todo mundo ficou sabendo. Não tardou que o Abel acordasse, a meio da noite, chorando, vendo “o diabo” em pesadelos. Um amiguinho lhe dissera que, como ele não era batizado, quando morresse, iria para o inferno, onde estava o dito… diabo.
Na escola da primeira infância, o Abel viu respeitado o seu peculiar estatuto. Era uma escola que acolhia a diversidade (também) religiosa, confessional. Um pai pediu transferência do seu filho para essa escola, alegando que, numa outra, a criança sofrera humilhação por ser uma “criança adventista. Perguntei-lhe se conhecia crianças “católicas”, “socialistas” ou “flamenguistas”. E se não haveria apenas crianças… sem rótulos. Conversamos, de pai para pai, e aquele pastor evangélico entendeu as palavras de Khalil Gibran:
“Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados”.
Trabalhei com educadores de todos os credos, crente de que, em matéria religiosa, nenhuma crença vale mais do que outra e ser necessário assegurar o respeito pela criança. Não compete à escola ensinar uma religião, nem ensinar o ateísmo. Quando o fundamentalismo invade a escola, a abertura estreita de uma “burca mental” somente permite ver o que é permitido num horizonte encurtado pelo fanatismo.
No tempo da ditadura, Portugal era uma quase teocracia. Salazar assinara uma Concordata com a Santa Sé e determinava que os portugueses só poderiam ser católicos. Quando, já em democracia, se discutia o uso do crucifixo nas escolas, uma professora escreveu num blog:
As pessoas que são contra o uso do crucifixo, que se mudem para outra terra”.
Quando o seu filho mudou de escola, o pai do Abel foi obrigado a requerer dispensa das aulas de “religião e moral católica”.
No primeiro dia de aulas, o professor dessa disciplina, apesar de ter conhecimento de que o pedido fora deferido, obrigou o Abel a entrar na sala de aula. Mandou-o rezar uma ave-maria. O Abel não sabia o que isso era. Virou alvo de escárnio geral. A turma inteira se aliou ao professor, para humilhar o Abel.
O domínio do secular não deveria ficar subordinado a “verdades reveladas”. Muito menos deveria ficar nas mãos de ensinantes, que se consideravam proprietários da consciência e se assumiam como reserva moral, exercendo sobre os seus alunos sutis formas de condicionamento espiritual.
Num tempo marcado pelo fanatismo, a imposição de um ensino confessional pressupunha uma visão redutora do ser humano e de mundo e valores eram transmitidos contaminados pelo sectarismo.
Numa escola brasileira, assisti a uma cena degradante: uma professora “católica” acusava de todos os males os evangélicos, e uma professora “evangélica” replicava no mesmo tom.
Enviei a Deus uma prece:
Deus misericordioso, tem piedade das crianças que caem nas mãos desta gente!”

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Cabuçu, 23 de julho de 2044

Longe vai o tempo em que fui aprender como avaliar por portfólio. Decorria a década de noventa e eu lá ia, em longa jornada e a expensas próprias, até ao lugar onde o amigo Domingos Fernandes – que viria a ser Presidente do Conselho Nacional de Educação, em vinte e dois – partilhava a sua tese de doutoramento.  Nos fins de semana, ia até Lisboa, trabalhar com o Paulo Abrantes, que se apaixonara pela “aprendizagem por competências”, e ao Instituto de Inovação Educacional. Por trinta anos, utilizei um livrinho concebido no I.I.E., de onde constava a imagem que encima esta cartinha. Chegados aos anos vinte deste século, o portfólio já era digital, mas a avaliação permanecia tão anacrónica como décadas atrás, o que me fez recordar um textinho por mim publicado em finais dos anos noventa e que rezava assim:  “Na binária e pacata rotina aula-teste instalara-se perturbação. Os pais dos alunos perguntavam se os exames da quarta classe tinham regressado. E já toda a gente procurava no ...