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Santo Ângelo, 25 de maio de 2045

Ao longo da minha já longa existência, assisti a muitas campanhas eleitorais imersas na costumeira mesmice: promessas já prometidas e abundantes disparates. Como este, proferido quando decorria, no Brasil, uma campanha eleitoral:

“Rede estadual terá aprovação continuada em todas as séries”.

Encarei a hipótese de se tratar de mais uma “fake new”. Não era. Era mesmo mais um disparate, portador de um novo conceito: “aprovação continuada”.

A notícia dava conta de que “todo aluno que tivesse feito atividades seria aprovado para a próxima série escolar em 2021”.

A rede estadual de ensino “teria progressão continuada em todas as séries, para os estudantes que tivessem feito alguma atividade letiva” (sic). No ano seguinte, os estudantes seriam matriculados na série subsequente da que frequentavam, “em regime de progressão continuada”.

Em campanhas anteriores, os candidatos sempre haviam execrado a dita “progressão continuada”, confundindo-a com a maléfica “aprovação automática”. Por que decidiram recorrer à “progressão automática” disfarçada com o rótulo de “progressão continuada”?

A estapafúrdia proposta fora aprovada pelo Conselho Estadual de Educação. Estudantes que não tivessem feito nenhuma atividade seriam convocados para “recuperação presencial”, em janeiro.

Em outros locais, as autoridades também “decidiram suspender a reprovação de alunos, por novas políticas de avaliação e por enxugamento do currículo escolar”.

“Novas políticas de avaliação”? Quais? Já o “enxugamento do currículo escolar” seria bem-vindo, embora tardio. Entretanto, o secretário da educação afirmava que nenhum estudante seria “reprovado pelo desempenho escolar”.

Entendeis o que o secretário pretendia dizer? Nem eu!

A maioria dos alunos não tinha conseguido acompanhar as aulas remotas, fora vítima do crime de “abandono intelectual”. Segundo a secretaria, seria necessário “dar um tempo maior para essa “recuperação das habilidades” (sic). Os anos letivos seguintes seriam considerados “um único ciclo contínuo, formado por oito bimestres escolares”.

Caberia perguntar: por que não trimestre, ou semestre? Enfim!

No contexto de uma escola e de uma democracia em crise. o disparate se democratizara. Essa boa gente sabia “aplicar prova e dar nota”, mas nada sabia de avaliação. As suas afirmações eram manifestações de ignorância – se tais afirmações fossem proferidas por gente das ciências da educação, tratar-se-ia de falsidade ideológica.

Os políticos não falavam com conhecimento de causa. Mas o que dizer dos seus assessores?

A demagogia dos políticos se casava com a pedagogia fóssil dos assessores, contribuindo para inviabilizar a substituição de um “ensino fundamental” por “aprendizagens essenciais”. Praxeologicamente desguarnecidos, “assessores” e “especialistas” dissertavam sobre leituras mal digeridas e exibiam pesquisas viciadas na sua essência.

Segundo o INEP e o MEC desse tempo, a elevada incidência de reprovação e evasão decorria da dificuldade em aprender com os procedimentos de ensino propostos pelos políticos e seus assessores, que não deveriam ter tempo para ler documentos oficiais.

Exibindo impressionantes cifras do insucesso, os candidatos a prefeito e a vereador criavam o ambiente propício à apresentação da sua poção mágica eleitoral. E, por muitos anos, a educação do Brasil permaneceu cativa de políticos demagogos e de falsos assessores.

Disso conhecemos, hoje, as inevitáveis e trágicas consequências. Mas nunca houve mal que sempre durasse…

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