Ao longo da minha já longa existência, assisti a muitas campanhas eleitorais imersas na costumeira mesmice: promessas já prometidas e abundantes disparates. Como este, proferido quando decorria, no Brasil, uma campanha eleitoral:
“Rede estadual terá aprovação continuada em todas as séries”.
Encarei a hipótese de se tratar de mais uma “fake new”. Não era. Era
mesmo mais um disparate, portador de um novo conceito: “aprovação
continuada”.
A notícia dava conta de que “todo aluno que tivesse feito atividades seria aprovado para a próxima
série escolar em 2021”.
A rede
estadual de ensino “teria progressão
continuada em todas
as séries, para os estudantes que tivessem feito alguma atividade letiva” (sic). No ano seguinte, os estudantes seriam
matriculados na série subsequente da que frequentavam, “em regime de
progressão continuada”.
Em campanhas
anteriores, os candidatos sempre
haviam execrado a dita “progressão
continuada”, confundindo-a com a maléfica
“aprovação automática”. Por que decidiram recorrer à “progressão automática”
disfarçada com o rótulo de “progressão
continuada”?
A estapafúrdia
proposta fora aprovada pelo Conselho Estadual de Educação. Estudantes que não
tivessem feito nenhuma
atividade seriam
convocados para “recuperação presencial”, em janeiro.
Em outros
locais, as autoridades também “decidiram suspender a reprovação de alunos,
por novas políticas de avaliação e por enxugamento do currículo escolar”.
“Novas
políticas de avaliação”? Quais? Já o “enxugamento do currículo escolar” seria
bem-vindo, embora tardio. Entretanto, o secretário da educação afirmava
que nenhum
estudante seria “reprovado pelo desempenho escolar”.
Entendeis o
que o secretário pretendia dizer? Nem eu!
A maioria dos
alunos não tinha conseguido acompanhar as aulas remotas, fora vítima do crime
de “abandono intelectual”. Segundo a secretaria, seria necessário “dar um
tempo maior para essa “recuperação das habilidades” (sic). Os anos
letivos seguintes seriam considerados “um único ciclo contínuo, formado por
oito bimestres escolares”.
Caberia
perguntar: por que não trimestre, ou semestre? Enfim!
No
contexto de uma escola e de uma democracia em crise. o disparate se
democratizara. Essa boa gente
sabia “aplicar prova e dar nota”, mas nada sabia de avaliação. As suas
afirmações eram manifestações de ignorância – se tais afirmações fossem
proferidas por gente das ciências da educação, tratar-se-ia de falsidade
ideológica.
Os políticos
não falavam com conhecimento de causa. Mas o que dizer dos seus assessores?
A demagogia dos políticos se casava com a pedagogia
fóssil dos assessores, contribuindo para inviabilizar a substituição de um “ensino fundamental” por “aprendizagens
essenciais”. Praxeologicamente desguarnecidos, “assessores” e “especialistas”
dissertavam sobre leituras mal digeridas e exibiam pesquisas viciadas na sua
essência.
Segundo o
INEP e o MEC desse tempo, a elevada incidência de reprovação e evasão decorria
da dificuldade em aprender com os procedimentos de ensino propostos pelos
políticos e seus assessores, que não deveriam ter tempo para ler documentos
oficiais.
Exibindo
impressionantes cifras do insucesso, os candidatos a prefeito e a vereador
criavam o ambiente propício à apresentação da sua poção mágica eleitoral. E,
por muitos anos, a educação do Brasil permaneceu cativa de políticos demagogos
e de falsos assessores.
Disso
conhecemos, hoje, as inevitáveis e trágicas consequências. Mas nunca houve mal
que sempre durasse…
