"Todos irmãos!” – Era assim que o saudoso Papa Francisco nos convidava, através de um singelo apelo, a assumir esse grande princípio dos Direitos Humanos: “Será possível aceitar o desafio de sonhar e pensar uma Humanidade diferente. É possível desejar um planeta que garanta terra, teto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da paz e não a estratégia insensata e míope de semear o medo e a desconfiança perante ameaças externas".
Nesse outubro
de 2020, urgia dar forma concreta às palavras do Francisco, porque nos chegavam
notícias de uma barbárie generalizada. Na França, um professor foi decapitado em plena rua. No
Rio, enquanto passeava
tranquilamente numa rua de Copacabana, um homem morreu, ao ser atingido na cabeça por uma bilha de gás
arremessada a partir do 12.º andar de um prédio. Também no Rio, em
apenas um dia, operações contra milícias mataram dezassete pessoas. Na Rússia, uma mãe colocou o seu bebê
preso dentro de um armário, para que morresse de fome. Também na Rússia, o corte feito numa menina de nove anos expunha o
alcance global da violência da mutilação genital. Em Portugal, pais
se preocupavam com a ordem dada de regresso
às aulas, sem que os jovens fizessem teste negativo à covid-19. Com 10 mil casos de covid-19 por dia, a Bélgica
fechava cafés e restaurantes. Entretanto, uma falsa vacina contra o
coronavírus era vendida… em Niterói.
A esperança de
melhores dias se fortalecia, quando recebia mensagens de educadores, cujos
generosos atos contribuíam para o advento de uma “Humanidade diferente”. Era
raro o dia em que não chegassem e-mails como o da Nieve, que cuidava de
crianças numa comunidade na zona sul de São Paulo:
“Paulo
Freire e Rubem Alves são meus "combustíveis" de concepção de uma
escola em que acredito e que tento contribuir para transformar.”
Para jovens
como a Nieve, o mestre Paulo e o mestre Rubem eram “combustíveis” de uma
humanização urgente. Confirmava-se aquilo que o amigo Rubem me dissera:
“Um educador
não é otimista, terá de ser esperançoso. O otimismo é da natureza do tempo,
enquanto a esperança é da natureza da eternidade”.
A esperança
não era “a última a morrer”. A esperança não poderia morrer, nem morreria. No
ato de educar, só existe uma proibição: é proibido desistir. Os freirianos
gestos de amor e de coragem eram indeléveis e se repercutiriam por gerações.
Durante
cerca de quarenta anos, viajei o mundo. Subitamente, em 2020 – um ano que nunca
existiu – remeti-me para uma voluntária reclusão, no isolamento social imposto
pela pandemia. Foram meses de uma estranha solidão, mitigada pela presença
virtual de educadores amigos. Nesse outubro, comecei a planejar o “regresso à
estrada e ao chão das escolas”. Passei por um outono do sul, enquanto já me
sentia na primavera do norte. O tempo seco do inverno do Cerrado chegou-me sob
a forma de verão português. Para atenuar a saudade, valeu-me a suave companhia
dos pássaros e a esplendorosa lua do céu de Brasília.
Com
a chegada da primavera do hemisfério sul, rompi com a outonal melancolia do
norte. Plantei árvores no meu “Jardim do Eden”, enquanto observava os pássaros
fazendo ninho, nas traseiras da minha casa. Gente linda veio conhecer uma
comunidade feita de gente e de pássaros. E assim passei os últimos vinte anos:
viajando, observando pássaros, ajudando gente a humanizar a educação.
Em 2045,
escuto os ecos de amorosos e corajosos atos. Projetos semeados, há vinte anos,
inspiram novos projetos. Poderei, enfim, retirar-me. Uma nova e promissora
geração de educadores tomou nas suas mãos essa tarefa.
