No tempo de pesadelo de que vos venho falando nas cartinhas mais recentres, eu buscava refúgio na escrita e naquilo que chamei de “partilha de beleza”. Enviava pedaços de “boniteza” a quem as merecia.
A beleza está nos olhos de quem vê, nos
ouvidos de quem sabe escutar, no coração de quem sente.
Naquele tempo, pensar era estar doente
dos sentidos. Pensar nos impedia de experienciar o amor e a liberdade, que,
juntos, nos conduziam por caminhos da resistência.
Sabíamos que a educação era um ato
estético e que éramos agredidos pela degradação do sensível. Para não
desesperançar ou desistir da vida, valia-nos o concerto dos pássaros, nas
suaves manhãs e nos fins de tarde no meu jardim, saboreando o encanto de pequenas
coisas, que fazem grandes os dias. A beleza nos salvava.
Enfim! A
escola precisava sair dela, andar por aí, ver o mundo. Depois, deixar pensar,
um pensar colorido com tudo o que cada um trouxer nos olhos, nas lembranças.
Sabíamos
que uma nova Escola para um novo mundo renasceria num parto humanizado, sem o
fórceps diário da disciplina, da tarefa boba e desprovida de vida inteligente,
que todo dia enche as pastas dos mestres e esvazia a alma dos que aprendem. Como
a do Mauro:
“Assim
caminhávamos, carregando o peso, um dia depois do outro, trocando farpas via
conceito, via nota, via parecer descritivo, via boletim... Avaliávamos a dor do fim, não o caminho bonito
e florido que deveria ser o lugar que produzisse boniteza, onde reinasse a
alegria.”
E a Sidi:
“Como
psicopedagoga, atendo centenas de crianças adoecidas por esse sistema de
encarceramento, de atenção aprisionada. Mas, o farol se mantém aceso. E segue
iluminando nossos caminhos como educadores. Obrigada, por manter viva a chama
da desobediência.”
Efetivamente,
para cuidar da infância, era necessário desobedecer. Para fazer ESCOLA PÚBLICA
era preciso desobedecer. Para cumprir a lei, era preciso desobedecer. Para
fazer prevalecer uma ciência prudente da educação, era preciso desobedecer.
Naquele
tempo, o Mestre Pedro apontava a direção da Escola Pública e era quase uma
exceção no domínio da teoria, pois escapava à sina do teoricismo reinante.
Enquanto os seus pares teorizavam teorizações de teorias e se mantinham
ancorados em práticas instrucionistas, o Mestre Pedro as questionava.
“Fisicamente, aprendizagem é
dinâmica mental que acontece no cérebro do aprendiz, sendo uma das propriedades
mais marcantes da evolução biológica, denominada por alguns biólogos como
“autopoiese”, para indicar seu movimento de dentro para fora, tipicamente
autoral.
A
trajetória de uma aprendizagem transformadora exige “ler a realidade”, conceito
que virou ícone de pedagogias que apostam na autoria do estudante”.
O
meu Mestre invocava Maturana. Eu já o havia estudado, bem como Varela e outros
autores da América Latina. Mas, nada melhor do que o ler descrito por um autor,
também, latino-americano.
Para
cumprir um compromisso assumido com uma secretaria de educação, criamos o
primeiro de muitos círculos de aprendizagem. E, na Latina América de há vinte
anos, fomos oferecer “aprendizagem transformadora” a escolas onde ainda havia
professores vivos, para que elas fossem, realmente, públicas.
O catalão Pablo Casals recusou viver sob
a ditadura franquista e se exilou.
Pouco antes de falecer, deixou escrito:
“Eu estou sempre a renascer. Cada nova
manhã é o momento de recomeçar a viver, uma maneira de retomar o contacto com o
mistério da vida, com o milagre de fazer parte da raça humana. A música que
toco é sempre a mesma. E é sempre nova.”
