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Barra do Garças, 9 de junho de 2045

No tempo de pesadelo de que vos venho falando nas cartinhas mais recentres, eu buscava refúgio na escrita e naquilo que chamei de “partilha de beleza”. Enviava pedaços de “boniteza” a quem as merecia.

A beleza está nos olhos de quem vê, nos ouvidos de quem sabe escutar, no coração de quem sente.

Naquele tempo, pensar era estar doente dos sentidos. Pensar nos impedia de experienciar o amor e a liberdade, que, juntos, nos conduziam por caminhos da resistência.

Sabíamos que a educação era um ato estético e que éramos agredidos pela degradação do sensível. Para não desesperançar ou desistir da vida, valia-nos o concerto dos pássaros, nas suaves manhãs e nos fins de tarde no meu jardim, saboreando o encanto de pequenas coisas, que fazem grandes os dias. A beleza nos salvava.

Enfim! A escola precisava sair dela, andar por aí, ver o mundo. Depois, deixar pensar, um pensar colorido com tudo o que cada um trouxer nos olhos, nas lembranças.

Sabíamos que uma nova Escola para um novo mundo renasceria num parto humanizado, sem o fórceps diário da disciplina, da tarefa boba e desprovida de vida inteligente, que todo dia enche as pastas dos mestres e esvazia a alma dos que aprendem. Como a do Mauro:

“Assim caminhávamos, carregando o peso, um dia depois do outro, trocando farpas via conceito, via nota, via parecer descritivo, via boletim...  Avaliávamos a dor do fim, não o caminho bonito e florido que deveria ser o lugar que produzisse boniteza, onde reinasse a alegria.”

E a Sidi:

“Como psicopedagoga, atendo centenas de crianças adoecidas por esse sistema de encarceramento, de atenção aprisionada. Mas, o farol se mantém aceso. E segue iluminando nossos caminhos como educadores. Obrigada, por manter viva a chama da desobediência.”

Efetivamente, para cuidar da infância, era necessário desobedecer. Para fazer ESCOLA PÚBLICA era preciso desobedecer. Para cumprir a lei, era preciso desobedecer. Para fazer prevalecer uma ciência prudente da educação, era preciso desobedecer.

Naquele tempo, o Mestre Pedro apontava a direção da Escola Pública e era quase uma exceção no domínio da teoria, pois escapava à sina do teoricismo reinante. Enquanto os seus pares teorizavam teorizações de teorias e se mantinham ancorados em práticas instrucionistas, o Mestre Pedro as questionava.

Fisicamente, aprendizagem é dinâmica mental que acontece no cérebro do aprendiz, sendo uma das propriedades mais marcantes da evolução biológica, denominada por alguns biólogos como “autopoiese”, para indicar seu movimento de dentro para fora, tipicamente autoral.

A trajetória de uma aprendizagem transformadora exige “ler a realidade”, conceito que virou ícone de pedagogias que apostam na autoria do estudante”.

O meu Mestre invocava Maturana. Eu já o havia estudado, bem como Varela e outros autores da América Latina. Mas, nada melhor do que o ler descrito por um autor, também, latino-americano.

Para cumprir um compromisso assumido com uma secretaria de educação, criamos o primeiro de muitos círculos de aprendizagem. E, na Latina América de há vinte anos, fomos oferecer “aprendizagem transformadora” a escolas onde ainda havia professores vivos, para que elas fossem, realmente, públicas.

O catalão Pablo Casals recusou viver sob a ditadura franquista e se exilou.

Pouco antes de falecer, deixou escrito:

“Eu estou sempre a renascer. Cada nova manhã é o momento de recomeçar a viver, uma maneira de retomar o contacto com o mistério da vida, com o milagre de fazer parte da raça humana. A música que toco é sempre a mesma. E é sempre nova.”

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Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...