Nos idos de vinte e cinco, recebi esta mensagem:
“Ao
fim da manhã, em Guimarães, ouvindo António Nóvoa falar da Escola como um bem
público e comum, fomos confrontados, no último dispositivo da sua brilhante intervenção,
com George Steiner que nos inquiria:
“Como foi possível tocar Schubert pela noite e marchar no
dia seguinte, de manhã, para cumprir as ‘obrigações’ no campo de concentração?
Nem a grande literatura, nem a música, nem a arte puderam
impedir a barbárie total. Chegaram mesmo a ser o ornamento dessa barbárie. Com
frequência proporcionaram uma decoração, uma fioritura, uma formosa moldura
para o horror.
O senhor Gieseking tocou Debussy - de maneira sublime,
parece - enquanto na rua se ouviam os gritos daqueles que passavam pelas
estações de Munique rumo ao campo da morte de Dachau.
Porque é que as humanidades não nos humanizaram?
Porque é que a cultura não nos tornou mais humanos?”
Sinto-me
sempre perturbado perante momentos como este porque acabo de esbarrar,
inevitavelmente, com a pergunta incontornável de T. Adorno: Como educar
depois de Auschwitz? Nessa manhã, contudo, houve uma outra interrogação que
aflorou na minha mente: Como educar depois de Gaza?”.
Que
tempos conturbados eram aqueles, de que vos falei na cartinha anterior! No “superior” feudal, reinava uma vassalagem opressora, a sobredeterminação
da burocracia e da finança e um normativismo ignorante. E, quer no “superior”
omo no pressuposto “inferior (em Portugal tinham inventado o eufemismo
“não-superior”), atávicos procedimentos fechavam caminhos para a erradicação da
inútil e malévola sala de aula, para pôr fim a desenfreadas competições, que
Montessori disse serem a origem de todos os conflitos, de todas as guerras,
para dar um fim à solidão dos professores.
Por
essa altura, uma administração autoritária e um academicismo instrucionista se
casavam, sendo causa primeira de prejuízos morais e pecuniários – docentes de
universidades privadas relatavam precarização e depressão, referindo-se à
redução das suas horas de trabalho:
“A minha angústia e ansiedade aumentaram drasticamente, A
palavra que melhor define meu momento é desespero. A redução torna o meu
sustento inviável, visto que minha única fonte de renda é a universidade. É
cruel!”
Infelizmente,
estes professores não se apercebiam de que estavam colhendo o que haviam
semeado, que era demitido à distância quem fazia ensinagem à distância ou,
quando presente numa sala de aula, o docente não estabelecia comunicação
biunívoca e vínculos, por ser a sala de aula um arquipélago de solidões.
Quatro
anos após esses incidentes, professores de dar aula eram trocados por robôs. Sem
que os alunos soubessem, houve uso de robôs no lugar de professores para
correções de atividades.
Gradualmente,
munidos de recursos facultados por um uso perverso da inteligência artificial,
empresas abútricas, escolas, universidades e múltiplas organizações foram
substituindo docentes por máquinas, que não reclamavam de condições de
trabalho, não auferiam salário, não sofriam de bournout, nem entravam em greve…
E, na década de trinta, os dadores de aula foram sendo extintos.
Em
2025, era grande o meu cansaço perante a sucessão de notícias que davam conta
do descalabro da educação, dos trágicos efeitos de uma escola sem sentido, sem
que se denunciasse as causas. O meu cansaço advinha de ter de escrever para
denunciar, quando desejaria mais anunciar. Acreditava que, algum dia, findaria
o drama de professores certos trabalhando de modo errado. E esse dia chegou.
