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Guimarães, 10 de junho de 2045

Nos idos de vinte e cinco, recebi esta mensagem:

“Ao fim da manhã, em Guimarães, ouvindo António Nóvoa falar da Escola como um bem público e comum, fomos confrontados, no último dispositivo da sua brilhante intervenção, com George Steiner que nos inquiria:

“Como foi possível tocar Schubert pela noite e marchar no dia seguinte, de manhã, para cumprir as ‘obrigações’ no campo de concentração?

Nem a grande literatura, nem a música, nem a arte puderam impedir a barbárie total. Chegaram mesmo a ser o ornamento dessa barbárie. Com frequência proporcionaram uma decoração, uma fioritura, uma formosa moldura para o horror.

O senhor Gieseking tocou Debussy - de maneira sublime, parece - enquanto na rua se ouviam os gritos daqueles que passavam pelas estações de Munique rumo ao campo da morte de Dachau.

Porque é que as humanidades não nos humanizaram?

Porque é que a cultura não nos tornou mais humanos?”

Sinto-me sempre perturbado perante momentos como este porque acabo de esbarrar, inevitavelmente, com a pergunta incontornável de T. Adorno: Como educar depois de Auschwitz? Nessa manhã, contudo, houve uma outra interrogação que aflorou na minha mente: Como educar depois de Gaza?”.

Que tempos conturbados eram aqueles, de que vos falei na cartinha anterior! No “superior” feudal, reinava uma vassalagem opressora, a sobredeterminação da burocracia e da finança e um normativismo ignorante. E, quer no “superior” omo no pressuposto “inferior (em Portugal tinham inventado o eufemismo “não-superior”), atávicos procedimentos fechavam caminhos para a erradicação da inútil e malévola sala de aula, para pôr fim a desenfreadas competições, que Montessori disse serem a origem de todos os conflitos, de todas as guerras, para dar um fim à solidão dos professores.

Por essa altura, uma administração autoritária e um academicismo instrucionista se casavam, sendo causa primeira de prejuízos morais e pecuniários – docentes de universidades privadas relatavam precarização e depressão, referindo-se à redução das suas horas de trabalho:

“A minha angústia e ansiedade aumentaram drasticamente, A palavra que melhor define meu momento é desespero. A redução torna o meu sustento inviável, visto que minha única fonte de renda é a universidade. É cruel!”

Infelizmente, estes professores não se apercebiam de que estavam colhendo o que haviam semeado, que era demitido à distância quem fazia ensinagem à distância ou, quando presente numa sala de aula, o docente não estabelecia comunicação biunívoca e vínculos, por ser a sala de aula um arquipélago de solidões.

Quatro anos após esses incidentes, professores de dar aula eram trocados por robôs. Sem que os alunos soubessem, houve uso de robôs no lugar de professores para correções de atividades.

Gradualmente, munidos de recursos facultados por um uso perverso da inteligência artificial, empresas abútricas, escolas, universidades e múltiplas organizações foram substituindo docentes por máquinas, que não reclamavam de condições de trabalho, não auferiam salário, não sofriam de bournout, nem entravam em greve… E, na década de trinta, os dadores de aula foram sendo extintos.

Em 2025, era grande o meu cansaço perante a sucessão de notícias que davam conta do descalabro da educação, dos trágicos efeitos de uma escola sem sentido, sem que se denunciasse as causas. O meu cansaço advinha de ter de escrever para denunciar, quando desejaria mais anunciar. Acreditava que, algum dia, findaria o drama de professores certos trabalhando de modo errado. E esse dia chegou.

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Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...