O sociólogo Giddens havia dito que, lamentavelmente, eram muitas as tensões que justificavam os “fundamentalistas que afirmavam: só há um modo de vida válido, e os demais têm de sair da frente”.
Por altura de vinte e cinco, eu recebia mensagens como aquela que aqui
reproduzo. A Adriana, educadora de infância, perguntava:
“Pelo que o senhor falou nas lives, vi que estou dando aulas e poucos
alunos estão aprendendo.
O que realmente gostaria é que todos aprendessem.
O que devo fazer para que meus alunos aprendam?
Assim
respondi:
“Foi essa a pergunta que três professores fizeram, há quase
cinquenta anos, numa escolinha do norte de Portugal, a primeira a concretizar a
proposta escolanovista… e em equipe. Também poderás encontrar as tuas respostas…
em equipe”.
O
que eu pretendia dizer à Adriana era que a profissão de professor não deveria
um ato solitário, mas um agir solidário.
Em outro
e-mail, a Raquel, professora da rede pública, assim dizia:
“Sofro de sérias inquietações acerca de como a escola é tão opressora
para as crianças, sendo que deveria ser um espaço de libertação.
Me formei em pedagogia e não sinto que tive em minha formação a
preparação necessária para a escola atual.
A minha ideia é realizar a quebra
de paradigmas, afirmar que, na nova escola, não é preciso dar aula.
Humildemente, peço um pouquinho da vossa sabedoria, para dar luz nas
minhas ideias, tão confusas. Afinal, eu também ainda sou uma professora que dá
aulas.
Eu poderia ser a sua aprendiz?”
Respondi
com uma pergunta:
“Raquel, poderás ajudar-me a aprender? Poderei ser teu mestre e aprendiz?”
Conheci
um secretário de educação que estudara sociologia,
psicologia e história da educação, epistemologia e currículo… Sabia que a
ensinagem “não funcionava”, nem presencialmente, nem à distância. Sabia que a
crise não era, essencialmente, sanitária – era uma crise de natureza moral e
ética. E que não era uma crise, mas um projeto, à boa maneira do dito do Mestre
Darcy.
Esse secretário era formado em ciências da educação (pelo menos, era o que
ele dizia…) e as suas atitudes me deixavam confuso. Se eu conseguia compreender
atitudes ignorantes de políticos, não conseguia compreender o obsceno silêncio
dos cientistas da educação. Esse insuportável silêncio contribuía para adiar
urgentes mudanças. Tardava o dia em que o maléfico sistema de
ensinagem viria a ser substituído por outro… de aprendizagem.
O discurso acadêmico
(mesmo na área das ciências da educação) insistia no recurso a conceitos e
práticas fósseis, ainda que assumindo “novo visual”. Nos idos de vinte, estavam
em voga paliativos como o chamado “ensino híbrido”.
Explorando
a ingenuidade pedagógica da “sociedade líquida”, empresas assaltavam o mercado
da educação com o novo “produto”. Iludindo professores de boa-fé, fundações se propunham formatá-los na “híbridez”.
As aclamadas “boas experiências” de educação híbrida eram caricaturas de
práticas centenárias ornamentadas com computadores e Internet.
E
não poderia faltar a famigerada “sala de aula invertida”. Dela se dizia “colocar
o aluno como protagonista”. Grosseira mentira! Era o professor quem “sugeria”
(belo eufemismo!) o conteúdo a consumir. Quando muito, havia uma ou outra busca
feita pelo aluno.
Em
2025, era ridículo chamar “inovação” à aula invertida. Diziam os “híbridos”
que, em sala de aula, alunos e professor discutiam em grupo. O casal Freinet
havia feito o mesmo, sem tecnologias de informação e comunicação, utilizando
ficheiros autocorretivos, no início da década de vinte… do século XX.
