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Salvaterra de Magos, 23 de junho de 2045

E eu me interrogava: porque seria que a maioria dos professores continuava a “dar aula em sala de aula, tendo consciência de que, desse modo, negavam o direito à educação à maioria dos seus alunos?

Perguntava se tinham lido a Constituição. Em Portugal, no artigo 74º, ela estabelecia seguinte:

“Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. 

Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito; garantir a educação permanente e eliminar o analfabetismo; garantir a todos os cidadãos, segundo as suas capacidades, o acesso aos graus mais elevados do ensino, da investigação científica e da criação artística (…)”

No Brasil, o Art. 205 assim rezava:

“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”

Insistir no absurdo de “dar aula em sala de aula” significava agir à margem da lei. Ao impor às escolas um modelo de ensino que não ensinava. Mais grave ainda era o fato de a Administração Educacional obrigar os professores a descumprir a lei. 

Durante décadas, reinou a impunidade no Reino da Educação: uma Administração autoritária aliada a dadores de aula padecendo de corrupção moral, condenaram à ignorância milhões de seres humanos.

Nos idos de vinte e cinco, solidariamente, convidava os meus companheiros de profissão para a reelaboração da sua cultura pessoal e profissional. Oferecia-lhes o exemplo da Ponte, uma escola que a todos os seus alunos garantia o direito à educação. Em vão o fazia, pois inventavam pretextos, lamentavam a sua situação, apontavam obstáculos (reais e imaginários), declinavam a solidária oferta. Tudo servia de argumento para manter uma iníqua situação.

Pelo junho de há vinte anos, assistia à desistência de muitos daqueles que acompanhara por décadas. E a Gabriela traduzia o sentir desses educadores e de muitos outros, que começavam a “baixar os braços”: 

“Quando eu estiver com mais clareza do que consigo fazer, falarei com vcs.

Agradeço muito o contato e sua força por continuar fazendo os educadores pensarem em mudanças. Mas, como mãe, e por mim mesma, não acredito muito em escola. O problema não é só a escolarização em si, (eu acho que o mundo só será sustentável com estruturas menores, mais autogeridas, mesmo que de certa forma seja preciso uma governança maior.

Sei que as comunidades de aprendizagem passam por isso, mas as pessoas ainda estão precisando pagar as contas, querem desenvolver suas "carreiras"... 

Enfim, é só um desabafo! Trabalhar com inovação é perder as ilusões, embora eu tenha esperança e acredite que a mudança que precisamos irá se concretizar. Talvez a geração do meu filho veja um pouco dessa concretude.

Sou muito grata, pois aprendi muito com o senhor e com os grupos a que tive acesso através das suas formações, seguindo os autores e epistemologia que o senhor sugere. Quem sabe, um dia ainda vou fazer a diferença em algum lugar, usando tudo que aprendi, né?” 

As mensagens de desalento recebidas nesse junho de há vinte anos, contrariamente ao que poderíeis supor, não me provocaram desalento, acenderam em mim um sentimento de um “regresso ao passado” ressignificado. 

Decidi relembrar a existência de uma escola sobre a qual haviam colocado um véu de silêncio. Decidi “Refazer a Ponte”. Fiz dela um quase um “estudo de caso”. Como vos irei contar.

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Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...