“Maricá, 11 de julho de 2025.
Uma semana decorrida sobre o seu falecimento, evoco a memória de um dos maiores educadores brasileiros, de um amigo gaúcho que, num evento realizado em sua homenagem, assim se manifestava:
“Educação é uma coisa complexa. Não é o que o povo pensa, que basta pôr toda a gente numa sala de aula”.
Danilo Gandin era um desses educadores, que amam aqueles que dizem e fazem o que é preciso que se diga e se faça.
Era contrário ao uso de livro didático, porque “a didática infantilizava os professores”. Defendia uma mudança radical na forma como as escolas tratavam os seus alunos, a partir de um projeto político-pedagógico onde o autoritarismo e o conteúdo voltado para o vestibular não tivessem lugar. Era contrário à imposição do vestibular, que continuava sendo mero um instrumento de darwinismo social.
Danilo Gandin era uma das vozes mais autorizadas e esclarecidas no campo da educação, uma voz necessária no meio do ruído que se instalara no Reino da Educação – nesse tempo, a Escola Pública já se transformava em mercadoria e tempos difíceis se avizinhavam.
A Hannah aprofundara o conceito de "banalidade do mal". E, em 2025, a teoria da Hannah é comprovada, sendo posta em prática. Os seus efeitos no campo da educação são catastróficos. Não fora esforço de educadores conscientes e éticos, teríamos perdido uma década de transformações.
Na Internet, recorrendo ao discurso das ciências da educação e deturpando esse discurso, marqueteiros da educação semeiam novas colonizações mentais. Negoceiam “ensinos híbridos” com escolas particulares e com o poder público. Sutilmente planejam a privatização completa da escola pública.
O planejamento do Mestre Gandin era de outra natureza. Escutemo-lo, à distância de muitas décadas:
“Existe um relacionamento quase cômico entre a atividade de planejar e a de arquivar: as pessoas que se envolvem em planejamento ortodoxo no Brasil necessitam, rapidamente, de algumas lições de arquivística. A maioria dos planos alcança, numa boa hipótese, um lugar respeitável no arquivo da instituição a que se ligam ou no de outras, cujos membros se interessam pelo estudo desses pretensiosos filhos da burocracia.
Num ano qualquer da década de 60, participando da elaboração de um audacioso plano, coube-nos, a mim e a um colega de trabalho, rever tipograficamente o texto definitivo.
A penosa tarefa (eram mais de 200 páginas!) interrompia-se por seguidas pausas, necessárias à nossa sanidade mental. Numa delas, durante um cafezinho, disse-me o amigo:
"Vamos trabalhar com muito cuidado pois nós seremos os últimos a ler este plano".
Nossa risada foi uma participação festiva na crença geral de que fazer planos é urna tarefa com valor em si mesma, da qual nada se espera realmente.
Não podemos esquecer o formalismo e a burocracia, que matam tudo aquilo em que tocam. Os experts fazem-nos preencher quadrinhos e formulários e nos dizem que estamos planejando. Evidentemente, nem eles mesmos levam a sério aqueles papéis e não julgam que vamos fazer algo daquilo. Mas a inconsciência e a falta de soluções os obrigam a render culto ao formalismo e à burocracia.
O planejamento trará a transparência de nossa ação, ou será burrice, safadeza e opressão. Há ainda a falta de capacitação técnica das pessoas que "planejam" ou coordenam a feitura de planos.”
Nada mais deverei a acrescentar à triste notícia do falecimento do Mestre, uma perda irreparável, como foi a do Freire, da Nilde, do Anísio, da Nise, Lauro...
Honremos a sua memória.
