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Erechim, 9 de julho de 2045

Trago-vos mais uma carta achada no baú das velharias:

Estação, 9 de julho de 2025

Hoje, a notícia irrompeu nua e crua na tela do computador:

“Uma criança morreu e pelo menos outras três pessoas ficaram feridas após um ataque em uma escola municipal de Estação, cidade do norte do Rio Grande do Sul. O autor das agressões é um adolescente que teria pedido para entrar no local para entregar um currículo. Ele foi detido em seguida.

Vitor, de 9 anos, foi esfaqueado na região do tórax e não resistiu aos ferimentos.  O agressor era um adolescente conhecido na comunidade – “A gente não está só comovido, a gente está apavorada. A gente conhece a família do agressor, tudo gente boa”.

O prefeito acrescentou que medidas de segurança em escolas haviam sido reforçadas após o ataque a creche em Blumenau, em 2023, quando quatro crianças morreram.

“Por isso que a gente jamais imaginava que alguém da própria comunidade fosse ocasionar todo esse mal que ele ocasionou aqui. A gente não sabe nem o que dizer, porque é uma coisa totalmente inesperada. Parece que o mal vem, se apossa de uma pessoa…”

Ligo uma TV de notícias sempre iguais:

Na “cidade maravilhosa”, tiroteio no Morro da Palmeira, assassinato de um coletor de lixo, acidente na Dutra, assalto no Metro, mortos e feridos, idoso sequestrado, bebé abandonado, apreensão de maconha, policial militar e outros seis suspeitos de integrar milícia, professora esfaqueada, morador de rua morreu na noite fria…

Também nesta manhã, outra notícia bruta me chegou:

“A Polícia Civil do Amazonas investiga como bullying o caso de um adolescente espancado até a morte em Manaus. O jovem, de 17 anos, teve traumatismo craniano e hemorragia.

Fernando, de 17 anos saiu para comprar leite e não voltou. Espancado com violência, o adolescente morreu dois dias depois, vítima de um crime que, segundo familiares e vizinhos, poderia ter sido evitado.”

Crimes que poderiam ser evitados! – quando me pediram para preparar um projeto para uma prisão e uma unidade de internação de jovens ditos “delinquentes”, eu respondi que preferia trabalhar a montante do sistema e não tentar remediar os males que o sistema engendra.

Por que não questionamos a manutenção de um modelo educacional familiar, social e escolar, uma das origens e causa de “tempos difíceis”?

A autora dessa expressão, Hannah Arendt, afirmava:

“O problema não é haver quem faz o mal, mas quem o permite. Não existe neutralidade.”

Desde há mais de meio século, pergunto: PORQUÊ?

Dizem estudos que, à entrada no Fundamental, metade das crianças já não faz perguntas. No final do Fundamental, a cifra cai para menos de dez por cento. Nas escolas de Ensino Médio, são raros os jovens que interrogam. E, nas universidades, quantos alunos fazem perguntas? 

Quando entrava na sala do Fundamental, eu dizia: Bom dia, meus amigos! 

Respondiam: Bom dia, professor! 

Na Universidade, fazia idêntica saudação: Bom dia, meus amigos! 

Em silêncio, os jovens universitários escreviam nos seus cadernos: “Bom dia, meus amigos”.

Quem os havia posto assim? Quantos professores se interrogam sobre as origens deste drama? 

Quando cessará a solidão da sala de aula?

Se é difícil estabelecer o diálogo com as famílias e se uma Administração Educacional autoritária recusa dialogar, comecemos pela Escola.

Lanço na praça pública um debate inadiável. No final da tarde, irei ler esta carta na Internet e conversar sobre perguntas. Proponho conversar, semanalmente e sem “achismos”, sobre perguntas. E a primeira das perguntas será esta:

Por que razão ainda existe quem dê aula em sala de aula?

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