E aqui vai a terceira carta. Ainda refere o primeiro dos obstáculos: o próprio professor. Se um professor decidisse reelaborar a sua cultura pessoal e profissional, não haveria mais obstáculos. Por isso, se dizia que a maioria dos professores eram dadores de aula - morriam aos vinte e só eram enterrados aos cinquenta ou sessenta. Eis o que dizia a terceira carta:
“Flamengo, 9 de julho de 2025,
“Cuida-se do que se trabalha e trabalha-se o que se cuida”, diria o Erich Fromm. E esse “cuidar” dos outros, ajudando-os a refazerem-se, pressupunha uma responsabilidade voluntária na defesa do respeito por valores e princípios, em “fluxos de cuidado”, agindo em submundos onde “algumas vidas valem menos que outras vidas”.
Buscando um modo de um dador de aula se transformar num professor, elaborei um “decálogo”, que foi referência de vários roteiros de estudo, que me levaram à prática da pesquisa de teoria prudente, para resolver as minhas dificuldades de ensinagem.
Por que se aprende? O que se deve aprender? Quem aprende? Quem me ajuda a aprender? Quando aprendo? Com quem aprendo? O que preciso aprender? De que preciso para aprender? Onde aprendo? Como aprendo? Como saber que aprendi?
Quando andava pelas escolas, incentivando nos professores a prática de uma comunicação dialógica, começava por perguntar aos seus alunos: O que queres saber? E me desgostava ouvi-los responder com outra pergunta: Tio, eu posso dizer o quero saber? E o que eu quero aprender?
Eram crianças de tenra idade, mas já com alguns anos de escutar respostas a perguntas que jamais fizeram - tinham desaprendido de perguntar.
Na minha vida de professor, nunca parei de perguntar: O que queres fazer? O que queres ser? E não acrescentava “quando fores grande” – deixaria de ser uma pergunta, para ser um xingamento. Criança não vai ser… Criança é!
Ainda hoje formulo perguntas, que considero pertinentes: Quando se aprende? Em 200 letivos, ou nos 365 dias de cada ano? Em quatro ou cinco horas de aula, ou nas vinte e quatro horas de cada dia? Em uma dúzia de anos, ou durante toda a vida?
Perguntando, participei na reinvenção do saber cuidar, para fazer face às adversidades de caóticos cenários sociais, nos encontros com modos de viver no cotidiano da comunidade-favela, frente a inúmeras violações de fundamentais direitos humanos” – há que se cuidar do broto, para que a vida nos dê flor” – amorosamente interpelar um mundo contaminado por uma ética individualista, que nos impede de cuidar de futuros cuidadores.
Inspirado na obra do amigo Ailton Krenak, vivi experiências coletivas, aprendi autonomia relacional, vivenciei companheirismo, solidariedade ativa. Rejeitei a competitividade negativa, para aprender responsabilidade social. Em todos os lugares por que passei, isso encontrei. Mas, também, deparei com individualismo e desrespeito.
Por mais de cinquenta anos, cultivei os valores que a Ponte me inculcara. Tentei contornar obstáculos. Compreendi que o maior obstáculo à mudança era eu. E me dispus a reelaborar a minha cultura pessoal e profissional.
O maior obstáculo era a minha cultura, a cultura pessoal e profissional dos professores, que deveria ser somada à representação que, nos idos de vinte, as famílias e a sociedade ainda tinham de Escola. O maior obstáculo seria eu, se não assumisse um compromisso ético com a educação.
Quem quiser saber como contornar este obstáculo poderá ler um livrinho a que dei o título de “Inovar é Assumir um Compromisso Ético coma Educação”. Talvez algum exemplar ainda possa ser encontrado num sebo.
