As cartas, que vos dou a ler, foram escritas no mês de julho de 2025. Transcrevo a segunda das cartas.
Inoã, 8 de julho de 2025
“Carl Jung dissera:
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”
Jung acrescentara a esta citação que o encontro de duas personalidades se assemelhava ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorresse, ambos sofreriam transformação. E eu não deixava de pensar no tempo em que ainda “dava aula”.
Há muito tempo já recusava fazer planejamentos trimestrais, ou semanais, e fazia o meu plano de aula na véspera. Porém, quando, no dia seguinte, eu dava a aula planejada no dia anterior, sentia que não era eu quem ali estava. Na sala de aula o eu-ator representava um papel definido no dia anterior. Eu era um clown, que não geria a imprevisibilidade. Eu não era autêntico. Eu não estava ali, numa relação de inteireza e profundidade. Algo ou alguém estava ausente.
A duras penas me apercebi que dar aula em sala de aula era um exercício inútil e prejudicial. Me apercebi que aprendíamos na intersubjetividade, na relação com o mundo, no estabelecimento de vínculos cognitivos, mas também emocionais e afetivos. Aprendíamos no re-ligare da família com a sociedade e a escola. E, nos primeiros mil dias das nossas vidas, fazíamos as aprendizagens fundamentais para a restante vida.
A presença próxima, física (não virtual) de parentes significativos, acaso os progenitores falecessem, melhorava as taxas de sobrevivência de uma criança e a sua saúde física e mental. E vários estudos dos idos de vinte concluíam que uma criança tinha mais probabilidade de crescer feliz, se acompanhada pelas avós.
Por que se separava avô e neto de tenra idade? No cuidar dos netos, os avós transmitiam ensinamentos, desde aprender a caminhar até ao contar estórias. E, se a comunicação emocional intergeracional se constituía em pilar básico de aprendizagem dos netos. As vovós Ludi tinha mais do que motivos de preocupação.
Uma desumana organização social do trabalho afastava os pais do convívio com os filhos. Crianças de tenra idade eram “encaixotadas” em creches, os avós sofriam entre as quatro paredes de um asilo. Ciente das nefastas consequências de tais práticas, a Vovó Ludi abdicou de um emprego a horas certas e investiu todo o seu tempo em jornadas de humanização, na prática da ética do cuidar.
Quando jovem professor, elaborei um roteiro de estudo, para reelaboração da minha cultura profissional.
Diz o Eclesiastes que há um tempo para cada coisa. E o Bob o citou, a par de outras canções do tempo em que eu partilhava o sonho do “Make Love, Not War”. No ano em que o Bob compôs “The Times They Are A-Changin”, decidi abandonar a profissão de montador eletricista, de me desviar de uma carreira de engenharia, para vir a ser professor. Processo lento e controverso, pois também se tratava de trocar um salário chorudo por um salário de miséria, de passar por dificuldades financeiras. Aliás, os maridos das professoras desse tempo diziam que as suas esposas eram professoras para “ganharem prós alfinetes”. Diziam que o salário do marido sustentava a casa. E, se a professoras se apaixonassem por um pé-rapado, o Salazar as proibia de casar-se com um pretendente que “não tinha onde cair”.
Cedo compreendi que o primeiro e mais difícil obstáculo a transpor era EU. A cultura profissional onde se moldara a minha prática era a de um dador de aula. Se eu continuasse a dar aula, consciente de condenar jovens à ignorância, eu não seria professor, eu seria um crápula.
