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Itaipuaçu, 24 de julho de 2045

Nos idos de vinte e cinco, participei de um evento criado por boa gente, para avaliação do desempenho da Base Nacional Curricular Comum brasileira. Quem tivesse participado em eventos afins, saberia que eu não fazia “palestra”, que eu fazia perguntas, escutava atentamente respostas, dialogava. Mas, naquela circunstância – uma Conferência – eu deveria fazer o que me fora solicitado: 

“O palestrante terá o tempo de 30 minutos para fazer sua apresentação. Após a apresentação do palestrante, algumas perguntas serão selecionadas do Chat e direcionadas para resposta do palestrante. Ao final, o Mediador abre a palavra para as Considerações Finais do palestrante, o qual terá o tempo de 3 minutos”. 

Esse era o formato comum de palestra. E o aceitei; não perguntei “o que quereis saber?”… entrei no âmbito do assunto. Pensei fazer uma abordagem histórica e um esboço de “enquadramento teórico”, porém, na intervenção que a minha intervenção precedeu, a Jaqueline foi perfeita nesse tipo de abordagem e eu optei por enveredar por uma espécie de análise crítica da BNCC. 

A Jaqueline perguntou 

“Como é que a BNCC nos ajuda?”

E acrescentou:

“Há um grande faz-de-conta na educação brasileira.”

Concordei. O Brasil detinha uma riquíssima ancestralidade pedagógica ainda por explorar. Foi no Brasil que eu encontrei a melhor educação. e citei vários autores.

Citei o grande Darcy Ribeiro, que dizia não ser o Brasil um país para amadores – era bem verdade porque, quanto mais conhecia o Brasil, menos o entendia.

Mas entendia o Darcy, quando disse que a crise da educação não era uma crise – era um projeto. Restava saber se seria um projeto civilizatório, ou a origem da barbárie instituída. Me quedei pela segunda hipótese, pois a BNCC foi uma má surpresa. E "A Escola Necessária" – título que deram à minha “conferência” – não era a da BNCC. E urgia a elaboração e aprovação de uma base curricular fundadora de uma nova construção social de aprendizagem. 

Desde há mais de meio século, assistira a tentativas de reforma curricular. No Portugal da década de 70, participei em comissões especializadas, e nos anos 90, no Conselho nacional e Educação, fui relator de um “parecer” sobre uma lei que propunha uma profunda reorganização curricular. Recordo-me de ter questionado a proposta ministareal da criação de uma disciplina chamada (se a memória não me trai) “educação para a cidadania”. No “parecer”, perguntei se os alunos só iriam aprender cidadania numa aula por semana, se não deveriam ser considerados cidadãos numa aula de matemática ou de educação físico-motora… 

As introduções das bases curriculares nacionais eram enfeitadas com repositórios de lugares-comuns do escolanovismo e agregavam à sofisticação do discurso “novidades pedagógicas” e “modismos híbridos”. Mas, contrastando com o discurso das introduções, as bases eram instrucionistas, pervertiam o discurso e se constituíam em obstáculos à mudança e à inovação.

Educador de chão de escola, não consegui disfarçar a minha perplexidade, quando escutei este diálogo, numa sala de professores:

“Não me sinto preparada para cumprir a BNCC”. 

“Medo de quê? Só tens que passar o conteúdo. Vais ver que é fácil! É só escrever na lousa digital e eles copiam.”

E assim foi… e se perdeu mais uma oportunidade de afirmação profissional, de dignificação da profissão de professor.

Bases curriculares eram construções históricas, reflexos de diferentes conceções de mundo e de ser humano, sujeitas a influências políticas e ideologias – eram meros palimpsestos.

Amanhã, vos explicarei.

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