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Bananal, 15 de agosto de 2045

Fiquemos, mais um pouco, com as palavras do amigo Celso sobre a Avaliação, que na Ponte se fazia: 

“A avaliação tem sido uma temática bastante enfatizada pelos professores. Para alguns, de facto, ela seria o que de mais importante acontece na escola, como se fosse um fim em si mesma e não um meio para se avançar nas grandes finalidades da escola (aprendizagem efetiva, desenvolvimento humano pleno e alegria crítica de cada um e de todos os alunos). 

Não temos dúvida de que a avaliação é uma estratégia fundamental para a existência, considerando que não nascemos prontos, nem programados (nossa programação biológica, embora fundamental para a sobrevivência, é mínima face ao aprendizado que teremos ao longo da vida), que nos constituímos por nossa atividade e, ao agir, podemos acertar ou errar. 

A avaliação nos ajuda na tomada de consciência dos acertos, o que é decisivo para o fortalecimento da autoestima, propiciando condições para novas aprendizagens (ampliação da Zona de Desenvolvimento Proximal); além disto, reforça a validade do percurso que está sendo feito. A tomada de consciência dos erros, por sua vez, é importante, para que possamos nos comprometer com sua superação, aprender com eles. 

Uma boa avaliação aponta ainda elementos potenciais, qual seja, que não estão ligados aos objetivos inicialmente traçados – ficando, portanto, fora da questão do acerto ou do erro –, mas que, muitas vezes, são mais importantes do que aquilo que se pretendia a princípio, por revelar dinâmicas interiores em desenvolvimento no sujeito. 

A avaliação é, sem dúvida, uma conquista da espécie humana. Todavia, consideramos que, em muitas situações, a ênfase que os educadores têm dado à avaliação da aprendizagem, tanto em termos de práticas quanto de discursos, é um tanto excessiva. 

Os alunos ainda não perderam esta terrível mania de acreditar mais no que fazemos do que no que falamos. Nós falamos,, toda hora, que o importante não é a nota, e eles não acreditam, só porque, com relação a provas e notas, fazemos semanas especiais, dias especiais, horários especiais, papéis especiais, dificuldades especiais, comportamentos especiais, rituais especiais, conselhos especiais, assinaturas especiais dos pais, datas especiais para entrega, pedidos especiais de revisão, legislação especial, reuniões especiais com professores e pais, caderneta especial, ameaças especiais através da nota, rotulações especiais em função da nota, tratamento especial para os alunos de acordo com as notas que tiram etc. 

Tem sua lógica o aluno dar muita ênfase à nota, pois sabe que, no fundo, é ela que decide sua vida na escola... Ainda que, muito provavelmente, essa não fosse a intenção original dos organizadores, a prática avaliativa [da Ponte] é uma denúncia desta ênfase exacerbada, justamente por revelar como pode ser a avaliação em outros moldes: na Escola da Ponte, a avaliação está fortemente presente no cotidiano dos alunos e educadores, mas, simultaneamente, marcada por uma sutileza e até mesmo, ousamos dizer, por uma delicadeza, que faz com que praticamente passe desapercebida, porque incorporada organicamente ao currículo. 

Quando pedi ao amigo Prof. Danilo Gandin que fizesse o prefácio de meu primeiro livro de avaliação, numa das ricas conversas informais que tivemos, ele me dizia, a partir de sua vivência infantil no campo, que falar de avaliação na escola era mais ou menos como lavar porcos: logo que se terminava de lavar o porquinho, este corria faceiro em direção ao chiqueiro e sujava-se todo novamente...”

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Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...