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Cidade do Porto, 31 de agosto de 2045

 

E chegamos à última carta dedicada à Avaliação.

O amigo Wilson esboçou uma "tradução", tentando ajudar à compreensão do modo como como avaliávamos.

“No Brasil, chama-se "recuperação" ao período, em geral, no final do ano letivo, em que os alunos que não conseguiram somar nota suficiente para serem aprovados numa determinada série e passar para a serie seguinte, recebem aulas de reforço nas áreas em quais apresentaram maior dificuldade. E fazem nova prova.

Se não conseguirem nota suficiente na recuperação, os alunos são reprovados e repetem o ano. Os que conseguem nota suficiente na recuperação são aprovados e "passam de ano".

Não sei o nome que se dá a isto em Portugal. E não sei, porque minha filha estudou em Portugal apenas na Escola da Ponte. E na Escola da Ponte não existe algo como "ano" ou "série" para o aluno repetir.

Nenhum aluno na Ponte "repete o ano", assim como também não "passa de ano". E como também nenhum aluno recebe notas no final do ano, não há nota para ser recuperada e por isto não existe algo como uma "recuperação", no sentido que expus acima.

Outro educador brasileiro acrescenta:

“Na Bahia, algumas escolas estão fazendo “Recuperação Paralela”. O aluno pode recuperar durante uma parte de suas férias do meio do ano os assuntos que ele não aprendeu durante as unidades anteriores.

Pelo menos no Colégio onde trabalho esta "recuperação' é opcional, o aluno não é obrigado a fazer, uma vez que ele ainda tem unidades para "recuperar” a nota. A opção por começar a recuperação nos dias finais das férias deve-se ao fato de as aulas ainda não terem começado e eles terem mais tempo para dedicar à recuperação.

Aconselhamos o aluno a não fazer muitas disciplinas, pois assim ele não terá tempo de dedicar-se ao estudo. O resto do tempo da “recuperação” é feita no turno oposto e a escola. Neste período, evita colocar avaliações formais.

A vantagem que alguns colégios alegam é de que, fazendo esta recuperação, o aluno tem uma condição maior de entender os assuntos posteriores.”

Uma professora da Ponte comenta:

“A recuperação, pelo que entendi, centra no aluno a responsabilidade do insucesso, pelo que dependerá do seu esforço adicional o alcance de um nível positivo. A finalidade será obter nota suficiente para a aprovação, o que exige que este tenha que voltar atrás, aprender o que não aprendeu, sendo que o resultado que se pretende que alcance deva ser positivo, mas não necessariamente aprendizagem.

Na nossa escola, e de acordo com o que o Wilson já referiu, esta realidade não tem lugar, o aluno não inicia novas aprendizagens sem ter consolidado as que escolheu planificar, e o fim último não é evitar a retenção, mas a promoção de um estudo com qualidade.

Privilegia-se o ritmo de cada aluno e acresce-se a motivação decorrente da escolha do que deseja trabalhar e não do que outros atores educativos decidiram que ele devia trabalhar.”

Nos idos de vinte e cinco, publiquei um livrinho com o título “Para Avaliar a Avaliação”, esperando contribuir para o esclarecimento de equívocos. Nesse tempo, a maioria das escolas aplicava testes. Os professores estavam crentes de que avaliavam. E, nas ditas “semana de avaliação”, “davam nota”, confundindo avaliação com classificação. Enfim!

Também no capítulo da Avaliação o projeto “Fazer a Ponte” apontava caminhos de renovação. Por isso, se transformou num “incómodo” para os guardiães da mesmice. E, para proteger os seres humanos de um sistema iníquo, resolvemos incomodar ainda mais…

A partir de amanhã, vos darei a conhecer cartas escritas no setembro desse ano.

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