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Paranhos, 23 de agosto de 2045


 Na transição para o vigésimo primeiro século, a Ponte ainda suscitava curiosidade. As perguntas não paravam de chegar até nós.

“Gostaria de saber como acontece a avaliação deste projeto. No decorrer do ano, pela observação das aprendizagens envolvidas? Por todos, em assembleia? Existe um momento de avaliação (ou autoavaliação) somente entre professores do referido projeto?

A todas as perguntas respondíamos, em solidários atos.

Eu não compreendi muito bem a sua referência a "um projeto comum que servirá como tema e referência a toda a escola".

Nós estabelecemos algumas linhas de ação para o nosso trabalho, no sentido de o melhorar. Estas linhas de ação, fundadas no projeto educativo, resultam em grande medida dos balanços efetuados no final do ano anterior. Estes balanços são efetuados pelas tutorias, pelas responsabilidades, pelas dimensões, pelos núcleos e pela equipa.

Paralelamente, são realizadas aferições, num processo de transformação em que todos mudamos algo.

Em relação aos alunos considerados “especiais” – para nós, todos são especiais – é levado em conta seu progresso frente às possibilidades anteriores.

“Leva-se em conta que o caminho se faz passo a passo? Tais alunos dispõem de tempo e estratégias de avaliação ainda mais diversificadas?

Nós vemos cada aluno como um ser único, pelo que trabalhamos tendo por base as características específicas dos mesmos. É neste sentido que se procura dar resposta às necessidades individuais de todos, sendo necessário desenvolver estratégias e metodologias que potenciem as capacidades de cada um, bem como possam ir de encontro aos seus interesses e características.

O respeito pela individualidade implica metodologias específicas, independentemente do nível de dificuldades que cada aluno possua.

A Escola da Ponte vale-se da avaliação formativa, a fim de que todos (crianças e adolescentes) sejam protagonistas, sujeitos de seus processos históricos, gestores de seus tempos e espaços, escolares e coprotagonistas de um projeto maior, que não desconsidera a importância desse modo de ser e estar no mundo, desse modo de negociar sentidos para as suas ações para melhor planejá-las e executá-las, para transformar esse mundo mesmo que aí está.

“Tenho, agora, especial interesse pela avaliação que vocês fazem do projeto da Escola da Ponte, como um todo. Sabemos que vocês procuram fazê-la da maneira mais participativa possível, favorecendo (como já disse) o protagonismo dos maiores interessados em seu sucesso, dos alunos e pais.

O projeto, imagino, lança olhares tanto para o desenvolvimento de cada um de seus atores quanto para o do coletivo, pois interdependentes.”

Tenho vivido no Brasil e sei que é comum que uma criança ingresse na 1ª série em uma escola localizada ao lado de um córrego poluído e sair de lá, lá pela 8ª ou 9ª série, com o córrego mais poluído ainda. Isso quando já não secou ou já não pode mais ser chamado de córrego...

Fica ela quase uma década a estudar a fotossíntese, os seres vivos, a importância dos recursos naturais para a sobrevivência das espécies etc. e etc., ao lado de uma possibilidade concreta de intervenção, sem que a escola, no entanto, lance olhares para além de seus muros, intervenção essa que, se levada a efeito, representaria (ou representa?) uma outra bela maneira de avaliar a pertinência do projeto maior, projeto de vida abundante para todos.

Existem, bem sabemos, inúmeras outras situações concretas a exigir-nos intervenções das escolas... de coletivos. Escolas são pessoas! Não nos esqueçamos.

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Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...