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Caçapa do Sul, 6 de setembro de 2025

Na Escola da Ponte do século XX como na Escola da Floresta do século XXI, para se fazer face à enorme dimensão da turma, não recorremos à “coadjuvação”, nem solicitamos “professores de apoio” – fez-se docência compartilhada, sem que lhe déssemos esse nome. E se fez trabalho de pares, sem que soubéssemos da existência de um “interacionismo” glosado por um senhor chamado Vygotsky. 

A amorosidade nos animava, a intuição pedagógica nos guiava. No início do século XXI, o projeto Fazer a Ponte foi referência para o de Lajeado e para centenas de outros projetos. Nele se dizia:

“Uma equipa coesa e solidária e uma intencionalidade educativa claramente reconhecida e assumida por todos (alunos, pais, profissionais de educação e demais agentes educativos) são os principais ingredientes de um projeto capaz de sustentar uma ação educativa coerente e eficaz. Os orientadores educativos que integram a equipa de projeto são solidariamente responsáveis por todas as decisões”.

A Internet me disse que docência é sinónimo de ensino, ato de transmitir conhecimentos – achei um princípio de explicação. Mias tarde, foi-me dado a conhecer um conjunto de textos e me solicitaram que emitisse um “comentário”. Agradeci o privilégio que me foi concedido de aceder a depoimentos de mestres da arte de ensinar. Neles encontrei exercícios de uma escrita sensível, cada qual a seu modo, refletindo a consciência do destino da escola e da necessidade de humanização do ato de ensinar. Com a atenção que mereciam, saboreei as suas reflexões. 

Falavam do ofício de professor universitário e das marcas que esse exercício imprimira nas suas vidas e nas vidas dos seus alunos. E, sobretudo, demonstravam uma verdade nem sempre evidente: há professores que não usam a pedagogia como mera ciência, mas como a arte de ensinar e aprender a arte de viver. 

Mesmo exercendo o seu múnus profissional num tempo em que não tiveram de competir com máquinas inteligentes, não ficaram imunes à crise da obsolescência de valores e à necessidade de transformação da educação. 

Observei que se dececionavam com a falta de interesse de muitos alunos, que, inertes, robotizados, prenunciavam o surgimento de uma crise de relações humanas, o anúncio da falência de um determinado modelo de sociedade:

“Ao longo desses anos todos, enfrentei muitas vezes a apatia dos alunos. Sempre há uma meia dúzia que faz a diferença, que faz o curso valer a pena. Mas a maioria sempre foi, acho que sempre é, mais ou menos apática. 

Eu me esforço para dar uma aula muito concentrada e, em geral, me irrito com qualquer comportamento dispersivo dos alunos. 

Como lido com a apatia na sala de aula? Esse é um grande problema. 

Ouço o que meus ex-alunos, agora professores, me dizem. Me ponho na pele deles e fico pensando: meu Deus, acho que sofreria demais. Porque mudou muito, os alunos mudaram muito. Não quero nem dizer que sejam piores, não é isso. É outra geração, é outro tipo de gente. 

Mas, pensando naqueles meus alunos antigos, que eram apáticos – e eram apáticos porquê? Você precisa de técnicas de como despertar a atenção deles. É difícil, viu?”

Era grande o incómodo de docentes que haviam passado, toda uma vida, distantes das duras realidades do chão de escola. Com toda a sua sapiência, não conseguiam entender que não foram os seus alunos que “mudaram muito”, que foi o modelo educacional por eles reproduzido que não mudou. No ensino “superior”, no topo de uma absurda cadeia hierárquica, nunca conseguiram enxergar o submundo do ensino “inferior”, réplica da matriz instrucionista universitária.

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