Pular para o conteúdo principal

Belém do Pará, 25 de dezembro de 2045

Na véspera do Dia de Natal de há vinte anos, quebrei uma tradição de décadas: não enviei mensagens celebrando o nascimento de um Menino, cujo Pai condenou à morte, para remissão dos nossos pecados. No dia seguinte, com familiares e amigos partilhei a celebração da Vida Daquele que anunciou o Advento de tempos novos, feitos de fraternidade.

Ontem, ao vasculhar velhos cadernos, encontrei notícias de primeira página de jornais de um distante Natal:

“Menina abusada e morta por padrasto”.

“Condenado a 18 anos de prisão por crimes de abuso e violação de enteada”.

“Mulher suspeita de espancar filha de 3 anos é presa”.

“Jovem tenta matar amigo a pedradas por ciúmes da própria mãe”.

Professora contou que uma vizinha a chamou de "preta nojenta".

“Mulher é libertada após viver em condições de escravidão”.

“Presépio brasileiro mostra Menino Jesus negro em uma Amazônia devastada, um bebê negro, filho de uma virgem negra, rodeado de querubins indígenas”. 

A OMS avisava: "A situação é gravíssima. Nem o Natal nem o Ano Novo poderão ser festejados como se pensava". Para o Ernesto, a natalícia solidão não seria novidade. De rosto estampado na página de um jornal, ele comentava:

“Estou sozinho em casa. Preparo tudo para a ceia, mas não tenho ninguém".

Ernesto somava o terceiro Natal passado sozinho. Só na Internet encontrava refúgio, para se abstrair de uma atoz solidão.

Nos natais da minha juventude, eu dirigia coros de igreja e cantava na Missa do Galo. Quando, em 2025, li notícias, que davam conta de uma profunda crise moral (a que a escola não era estranha), recordei um Natal de finais da década de sessenta.

Pouco passava da meia-noite, saí da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, cantando a plenos pulmões o cântico final da Missa do Galo:

“Paz na Terra, Paz na Terra e Glória a Deus nos altos céus.

Glória ao Filho, Glória à Mãe!

A Paz na Terra! A Paz na Terra!”

Noite fria foi aquela! Talvez estivessem uns cinco graus abaixo de zero. E eu descendo a rua, que me levaria a casa, cantando, possuído pelo espírito natalício. Até que… numa reentrância de loja chique, deparei com um quadro, que me era familiar – fora o último que vira, ao sair da igreja: a Pietá.

Uma mulher acalentava uma criança. Aturdido, escutando o seu soluçar, me aproximei, sem saber o que fazer. Ao seu lado, um velho jazia, tremendo. debaixo de uma manta esburacada. Ao seu redor, começava a formar-se uma fina camada de geada. Também chorava. Debrucei-me sobre aquele corpo franzino, passei a minha mão pelo seu enrugado rosto. Perguntei o que poderia fazer por ele. Com voz trémula, me disse:

“O que eu quero, meu filho é que a morte não demore a chegar. Vai, meu filho, vai! Deixa-nos. Vai para casa”.

Fui me afastando, possuído por um estranho sentimento.

Na Praça da Liberdade, deparei com duas prostitutas seminuas, tão trémulas quanto os moradores de rua. Em vão, esperavam clientes – senti vontade de fugir sem saber de quê.

Exausto, quase chegado a casa, sentei-me nos degraus de pedra das Escadas da Vitória. Subitamente, soltou-se um mar de lágrimas feitas de impotência e raiva.

Na sua “Antologia Poética”, Torga assim evocava o Natal:

“Nasce mais uma vez, Menino Deus!

Não faltes, que me faltas, neste Inverno gelado.

Nasce nu e sagrado, nasce e fica comigo, secretamente

Até que eu, infiel, te denuncie aos Herodes do mundo.

Até que eu, incapaz de me calar, devasse os versos

E destrua a paz, que agora sinto, só de te sonhar”

No Natal de 2025, a “Festa da Família” de um dos “anos da graça” que nunca existiram foi diferente do habitual – vivi o primeiro dos natais de todos os dias.

Postagens mais visitadas deste blog

Jardim Atlântico Leste 19 de julho de 2045

Na Maricá, perto do lugar onde Darcy viveu os seus últimos dias, o dia 19 de julho de há vinte anos marcou o reinício do projeto “Praticar Darcy”, integrando o que, erradamente, o “Sistema que sustentava a crise” separava: a Família, a Sociedade e a Escola. Não iludíamos os obstáculos, mostrávamos possibilidades – tratava-se tão só de um apelo a decência, de uma contribuição para a regeneração do “sistema que sustentava a crise”, uma simples prática de humanização do ato de aprender e de ensinar. O convite à participação nesse ato cívico rezava assim: “Convidamos os educadores de Maricá para “Praticar Darcy”, fazendo “uma Ponte” em Maricá. No dia 19 de julho, entre as 14 e as 17 horas, na Barra de Maricá, será realizada uma “residência pedagógica” com crianças, jovens e adultos participantes da Colónia de Férias da Associação Art7. Trata-se de uma efetiva INOVAÇÃO, que partilhamos com os educadores de Maricá.” A “crise” que Darcy disse ser um “projeto” prolongava-se, indefinidamente. O...