Na véspera do Dia de Natal de há vinte anos, quebrei uma tradição de décadas: não enviei mensagens celebrando o nascimento de um Menino, cujo Pai condenou à morte, para remissão dos nossos pecados. No dia seguinte, com familiares e amigos partilhei a celebração da Vida Daquele que anunciou o Advento de tempos novos, feitos de fraternidade.
Ontem, ao vasculhar
velhos cadernos, encontrei notícias de primeira página de jornais de um
distante Natal:
“Menina abusada e morta por padrasto”.
“Condenado a 18 anos de prisão por crimes
de abuso e violação de enteada”.
“Mulher suspeita de espancar filha de 3 anos é presa”.
“Jovem tenta matar amigo a pedradas por ciúmes da própria
mãe”.
Professora contou que uma
vizinha a chamou de "preta nojenta".
“Mulher é
libertada após viver em condições de escravidão”.
“Presépio brasileiro mostra Menino Jesus negro em uma
Amazônia devastada, um bebê negro, filho de uma virgem negra, rodeado de
querubins indígenas”.
A OMS avisava:
"A situação é gravíssima. Nem o Natal nem o Ano Novo poderão ser
festejados como se pensava". Para o Ernesto, a natalícia
solidão não seria novidade. De rosto estampado na página de um jornal, ele comentava:
“Estou sozinho em casa. Preparo tudo para a ceia, mas não tenho ninguém".
Ernesto somava o terceiro Natal passado sozinho. Só na
Internet encontrava refúgio, para se abstrair de uma atoz solidão.
Nos natais da minha juventude, eu dirigia
coros de igreja e cantava na Missa do Galo. Quando, em 2025, li notícias, que
davam conta de uma profunda crise moral (a que a escola não era estranha),
recordei um Natal de finais da década de sessenta.
Pouco passava da meia-noite, saí da Igreja de
Nossa Senhora da Conceição, cantando a plenos pulmões o cântico final da Missa
do Galo:
“Paz na Terra, Paz na Terra e Glória a Deus
nos altos céus.
Glória ao Filho, Glória à Mãe!
A Paz na Terra! A Paz na Terra!”
Noite fria foi aquela! Talvez estivessem uns
cinco graus abaixo de zero. E eu descendo a rua, que me levaria a casa,
cantando, possuído pelo espírito natalício. Até que… numa reentrância de loja
chique, deparei com um quadro, que me era familiar – fora o último que vira, ao
sair da igreja: a Pietá.
Uma mulher acalentava uma criança. Aturdido,
escutando o seu soluçar, me aproximei, sem saber o que fazer. Ao seu lado, um
velho jazia, tremendo. debaixo de uma manta esburacada. Ao seu redor, começava
a formar-se uma fina camada de geada. Também chorava. Debrucei-me sobre aquele
corpo franzino, passei a minha mão pelo seu enrugado rosto. Perguntei o que
poderia fazer por ele. Com voz trémula, me disse:
“O que eu quero, meu filho é que a morte não
demore a chegar. Vai, meu filho, vai! Deixa-nos. Vai para casa”.
Fui me afastando, possuído por um estranho
sentimento.
Na Praça da Liberdade, deparei com duas
prostitutas seminuas, tão trémulas quanto os moradores de rua. Em vão,
esperavam clientes – senti vontade de fugir sem saber de quê.
Exausto, quase chegado a casa, sentei-me nos
degraus de pedra das Escadas da Vitória. Subitamente, soltou-se um mar de
lágrimas feitas de impotência e raiva.
Na sua “Antologia Poética”, Torga assim evocava o
Natal:
“Nasce mais uma vez, Menino Deus!
Não faltes, que me faltas, neste Inverno gelado.
Nasce nu e sagrado, nasce e fica comigo,
secretamente
Até que eu, infiel, te denuncie aos Herodes do
mundo.
Até que eu, incapaz de me calar, devasse os versos
E destrua a paz, que agora sinto, só de te sonhar”
No Natal de 2025, a
“Festa da Família” de um dos “anos da graça” que nunca existiram foi diferente
do habitual – vivi o primeiro dos natais de todos os dias.
