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Recanto, 22 de dezembro de 2025

Os disparates se extremavam. Um secretário de educação era perentório:

“Rede de ensino terá a aprovação continuada em todas as séries”.

Um político demagogo assegurava:

“Se for eleito, irei acabar com a aprovação automática”

Encarei a hipótese de se tratar de mais algumas “fake news”. Fui confirmar – eram mesmo disparates, referências a algo que jamais fora legislado, leviandades.

Outra notícia dava conta de que “todo aluno que tivesse feito atividades seria aprovado para a próxima série”. A rede estadual de ensino “teria progressão continuada em todas as séries, para os estudantes que tivessem feito alguma atividade letiva” (sic).

Aliás, já não era novidade municipal, pois a estapafúrdia proposta já fora aprovada pelo Conselho Estadual. Estudantes que não tivessem feito nenhuma atividade seriam convocados para “recuperação presencial”. Em outros locais, as autoridades também “decidiram suspender a reprovação de alunos, por novas políticas de avaliação”. Entretanto, o secretário da educação afirmava que nenhum estudante seria “reprovado pelo desempenho escolar”.

Entendeis o que o secretário pretendia dizer? Nem eu!

No contexto de uma escola e de uma democracia em crise. o disparate se democratizara. Os políticos não falavam com conhecimento de causa. Mas o que dizer dos seus assessores?

A demagogia dos políticos se casava com a pedagogia fóssil dos seus assessores. Praxeologicamente desguarnecidos, “assessores” e “especialistas” dissertavam sobre leituras mal digeridas e exibiam pesquisas viciadas. E eu perguntava: em que consiste a prática daquilo que dizem ser “aprovação continuada”?

O parágrafo 2º do art. 32 da LDBEN assim reza:

“Os estabelecimentos que utilizam progressão regular por série podem adotar no ensino fundamental o regime de progressão continuada, sem prejuízo da avaliação do processo de ensino-aprendizagem, observadas as normas do respetivo sistema de ensino.”

Se a lei apenas fala de “progressão continuada”, por que se fala de “aprovação automática”?

Diretores, gestores, administradores do sistema de ensino não sabiam que resposta dar. Mas os “doutores em educação”, certamente, saberiam. Porque se omitiam? Porque se acoitavam num obsceno silêncio?

Por muitos anos, a educação do Brasil permaneceu cativa de demagogia – e assim permanece. Enquanto o IDEB e outros indicadores se mantêm no nível da indigência pedagógica, empresas abútricas, formadores de professores, assessores, consultores e palestrantes de cuspe e power point enriquecem “vendendo gato por lebre”.

Prefeituras pagam milhões de reais a “especialistas” (sabe-se lá em quê!), para que esses “especialistas” ensinem os professores a elaborar os projetos das escolas. Consegui ter acesso a alguns dos ditos projetos. Os “especialistas” tinham utilizado a “chapa zero” – os projetos eram todos iguais.

Não se poderia chamar “projeto” a um amontoado de senso comum pedagógico misturado com citações descontextualizadas. E, quando questionados os professores sobre o conteúdo dos projetos das suas escolas, concluí que nem sequer os tinham lido.

Continuamos vivendo em tempos sombrios, com projetos de mudança e com potencial de inovação sobrevivendo a uma proto-história da Educação, na qual práticas arcaicas assentes na “aprovação automática” e em outras pedagógicas alarvidades prevalecem sobre a prática de uma “progressão continuada” assente em critérios de natureza científica.

Por onde andarão os teoricistas especialistas no domínio da avaliação pedagógica?

 

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