Os disparates se extremavam. Um secretário de educação era perentório:
“Rede de ensino terá a
aprovação continuada em todas as séries”.
Um político demagogo assegurava:
“Se for eleito, irei acabar com a aprovação automática”
Encarei a hipótese de se tratar de mais algumas “fake news”. Fui
confirmar – eram mesmo disparates, referências a algo que jamais fora
legislado, leviandades.
Outra notícia dava conta de que “todo aluno
que tivesse feito atividades seria aprovado para a próxima série”. A rede
estadual de ensino “teria progressão continuada em
todas as séries, para os estudantes que tivessem feito alguma atividade letiva” (sic).
Aliás, já
não era novidade municipal, pois a estapafúrdia proposta já fora aprovada pelo
Conselho Estadual. Estudantes que não tivessem feito nenhuma atividade seriam
convocados para “recuperação presencial”. Em outros locais, as autoridades
também “decidiram suspender a reprovação de alunos, por novas políticas de
avaliação”. Entretanto, o secretário da educação afirmava que nenhum estudante seria “reprovado
pelo desempenho escolar”.
Entendeis
o que o secretário pretendia dizer? Nem eu!
No
contexto de uma escola e de uma democracia em crise. o disparate se
democratizara. Os políticos não falavam com conhecimento de causa. Mas o que
dizer dos seus assessores?
A
demagogia
dos políticos se casava com a pedagogia fóssil dos seus assessores.
Praxeologicamente desguarnecidos, “assessores” e “especialistas” dissertavam
sobre leituras mal digeridas e exibiam pesquisas viciadas. E eu perguntava: em
que consiste a prática daquilo que dizem ser “aprovação continuada”?
O
parágrafo 2º do art. 32 da LDBEN assim reza:
“Os
estabelecimentos que utilizam progressão regular por série podem adotar no
ensino fundamental o regime de progressão continuada, sem prejuízo da avaliação
do processo de ensino-aprendizagem, observadas as normas do respetivo sistema
de ensino.”
Se
a lei apenas fala de “progressão continuada”, por que se fala de “aprovação
automática”?
Diretores,
gestores, administradores do sistema de ensino não sabiam que resposta dar. Mas
os “doutores em educação”, certamente, saberiam. Porque se omitiam? Porque se acoitavam
num obsceno silêncio?
Por
muitos anos, a educação do Brasil permaneceu cativa de demagogia – e assim
permanece. Enquanto o IDEB e outros indicadores se mantêm no nível da
indigência pedagógica, empresas abútricas, formadores de professores,
assessores, consultores e palestrantes de cuspe e power point enriquecem
“vendendo gato por lebre”.
Prefeituras
pagam milhões de reais a “especialistas” (sabe-se lá em quê!), para que esses
“especialistas” ensinem os professores a elaborar os projetos das escolas.
Consegui ter acesso a alguns dos ditos projetos. Os “especialistas” tinham
utilizado a “chapa zero” – os projetos eram todos iguais.
Não
se poderia chamar “projeto” a um amontoado de senso comum pedagógico misturado
com citações descontextualizadas. E, quando questionados os professores sobre o
conteúdo dos projetos das suas escolas, concluí que nem sequer os tinham lido.
Continuamos
vivendo em tempos sombrios, com projetos de mudança e com potencial de inovação
sobrevivendo a uma proto-história da Educação, na qual práticas arcaicas assentes
na “aprovação automática” e em outras pedagógicas alarvidades prevalecem sobre a
prática de uma “progressão continuada” assente em critérios de natureza científica.
Por
onde andarão os teoricistas especialistas no domínio da avaliação pedagógica?
