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Iguaba Grande, 1 de janeiro de 2026

No início deste século, publiquei livrinho com o título “Para os filhos dos filhos dos nossos filhos”. A Janaína o transformou numa bela peça de teatro, mas por aí se quedou o impacto dessa obra – aqueles tempos não eram propícios para aqueles que se lançavam em processos de humanização do ato de ensinar e aprender.

No mesmo ano, surgiria o “movimento” que deu pelo nome de “Românticos Conspiradores”. Esses educadores, a quem devo a aprendizagem do Brasil da Educação, sabiam que nenhum modelo educacional seria perene. E, nas minhas andanças, formulavam as mesmas perguntas que eu fizera, há mais de cinquenta anos.

Devereis estar recordados de vos ter falado de uma espécie de “epifania”, que me conduziu à instalação da minha segunda crise educacional… e até mesmo existencial. Fora mesmo uma epifania, uma revelação, a partir de algo inesperado, uma percepção intuitiva, um e entendimento repentino do sentido de alguma coisa. Explicarei em que consistiu

No tempo em que era apenas um “dador de aula”, me perguntava:

“Por que será que eu dou aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?

A primeira das crises despontou quando cheguei a uma inevitável conclusão: se eu dou aula bem dada e há quem não aprenda, eles não aprendem porque eu… dou aula.

Pois, pois… e depois? Eu só sabia dar aula. E, das duas… uma: ou encontrava um modo de dar aula que fizesse com que todos aprendessem, ou iria embora da profissão, regressando à engenharia.

Optei por ficar dados de aula e tentar um modo de ser professor. Isto é: encontrar um modo que a todos garantisse o direito à educação.

Naquele tempo – estou a falar do início dos anos 70 – professores efetivos ou agregados eram obrigados a fazer planejamentos quinzenais. Ousei desobedecer guiado por um pressentimento que qualquer colega já teve, algum dia. me assaltou, como afetaria qualquer colega – optei por um planejamento tão próximo quanto fosse possível do momento da aula.

Concluí o planejamento era já madrugada. Mas, quando na manhã seguinte comecei a dar a aula, senti que não era eu quem ali estava. Na sala de aula, o eu-ator representava um papel escrito no dia anterior. Eu era um clown, que não geria a imprevisibilidade. Eu não era autêntico. Eu não estava ali, numa relação de inteireza e profundidade. Algo ou alguém estava ausente. E, se não havia comunicação, não gerava vínculos, pouco ou nada se aprendia.

Compreendi que aprendíamos na intersubjetividade, na relação com o mundo, no estabelecimento de vínculos cognitivos, mas também emocionais e afetivos. Aprendíamos no re-ligare da família com a sociedade e a escola. Foi nesse contexto que o “Fazer a Ponte” foi concebido. Foi desse modo que o primeiro obstáculo foi ultrapassado – com a ajuda das famílias dos meus alunos, com o apoio de uma comunidade, afastando-me da solidão da sala de aula, trabalhando em equipe.

Compreendi que o maior obstáculo à mudança era eu, e tentei reelaborar a minha cultura profissional. Porém, um segundo obstáculo surgiu, um doloroso obstáculo de que, em breve, vos falarei. Para começar 2026, vos deixo algumas interrogações:

A que se deve a normose que se apoderou dos professores e que os impede de assumir um compromisso ético com a Educação?

Até quando perenizaremos um sistema de ensino obsoleto, hierárquico, autoritário e corrupto, produtor de um genocídio educacional e de outras mazelas sociais?

Porque se continua a “dar aula” em sala de aula?

Manifestemos opiniões fundamentadas, sem “achismos”. Promovamos um debate fraterno e construtivo. Até ao dia 15, espero as vossas contribuições.

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