No início deste século, publiquei livrinho com o título “Para os filhos dos filhos dos nossos filhos”. A Janaína o transformou numa bela peça de teatro, mas por aí se quedou o impacto dessa obra – aqueles tempos não eram propícios para aqueles que se lançavam em processos de humanização do ato de ensinar e aprender.
No mesmo ano, surgiria o “movimento”
que deu pelo nome de “Românticos Conspiradores”. Esses educadores, a quem devo a
aprendizagem do Brasil da Educação, sabiam que nenhum modelo educacional seria
perene. E, nas minhas andanças, formulavam as mesmas perguntas que eu fizera,
há mais de cinquenta anos.
Devereis estar recordados de vos ter
falado de uma espécie de “epifania”, que me conduziu à instalação da minha
segunda crise educacional… e até mesmo existencial. Fora mesmo uma epifania,
uma revelação, a partir de algo inesperado, uma percepção intuitiva, um e entendimento
repentino do sentido de alguma coisa. Explicarei em que consistiu
No tempo em que era apenas um “dador
de aula”, me perguntava:
“Por que será que eu dou aula tão bem
dada e há alunos que não aprendem?
A primeira das crises despontou quando
cheguei a uma inevitável conclusão: se eu dou aula bem dada e há quem não
aprenda, eles não aprendem porque eu… dou aula.
Pois, pois… e depois? Eu só sabia dar
aula. E, das duas… uma: ou encontrava um modo de dar aula que fizesse com que
todos aprendessem, ou iria embora da profissão, regressando à engenharia.
Optei por ficar dados de aula e tentar
um modo de ser professor. Isto é: encontrar um modo que a todos garantisse o
direito à educação.
Naquele tempo – estou a falar do
início dos anos 70 – professores efetivos ou agregados eram obrigados a fazer
planejamentos quinzenais. Ousei desobedecer guiado por um pressentimento que qualquer
colega já teve, algum dia. me assaltou, como afetaria qualquer colega – optei
por um planejamento tão próximo quanto fosse possível do momento da aula.
Concluí o planejamento era já madrugada.
Mas, quando na manhã seguinte comecei a dar a aula, senti que não era eu quem
ali estava. Na sala de aula, o eu-ator representava um papel escrito no dia
anterior. Eu era um clown, que não geria a imprevisibilidade. Eu não era
autêntico. Eu não estava ali, numa relação de inteireza e profundidade. Algo ou
alguém estava ausente. E, se não havia comunicação, não gerava vínculos, pouco
ou nada se aprendia.
Compreendi que aprendíamos na
intersubjetividade, na relação com o mundo, no estabelecimento de vínculos
cognitivos, mas também emocionais e afetivos. Aprendíamos no re-ligare da
família com a sociedade e a escola. Foi nesse contexto que o “Fazer a Ponte”
foi concebido. Foi desse modo que o primeiro obstáculo foi ultrapassado – com a
ajuda das famílias dos meus alunos, com o apoio de uma comunidade, afastando-me
da solidão da sala de aula, trabalhando em equipe.
Compreendi que o maior obstáculo à mudança
era eu, e tentei reelaborar a minha cultura profissional. Porém, um segundo
obstáculo surgiu, um doloroso obstáculo de que, em breve, vos falarei. Para
começar 2026, vos deixo algumas interrogações:
A que se deve a normose que se apoderou dos
professores e que os impede de assumir um compromisso ético com a Educação?
Até quando perenizaremos um sistema de ensino
obsoleto, hierárquico, autoritário e corrupto, produtor de um genocídio
educacional e de outras mazelas sociais?
Porque se continua a “dar aula” em sala de
aula?
Manifestemos opiniões fundamentadas, sem
“achismos”. Promovamos um debate fraterno e construtivo. Até ao dia 15, espero
as vossas contribuições.
