“Note algo muito curioso. O defeito é que faz a gente pensar. O que não é problemático não é pensado. Você nem sabe que tem fígado até o momento em que ele funciona mal. Nem sabe que tem coração, até que ele dá umas batidas diferentes. Você nem toma consciência do sapato, até que uma pedrinha entra lá dentro. Quando está escrevendo, você se esquece da ponta do lápis até que ela quebra.
Você não sabe que tem olhos - o que significa
que vão muito bem. Você toma consciência deles quando começam a funcionar mal.
Da mesma forma que você não toma consciência do ar que respira, até que ele
começa a cheirar mal...
Fernando Pessoa diz que "pensamento é
doença dos olhos". É verdade, mas nem toda. O mais certo seria
"pensamento é doença do corpo".
“O defeito é que faz a gente pensar” – dizia
o amigo Rubem, na sua “Filosofia da Ciência” – “A gente pensa porque as coisas
não vão bem – alguma coisa incomoda. Quando tudo vai bem, a gente não pensa,
mas simplesmente goza e usufrui...”
Sabei que um dos meus maiores defeitos é
pensar e... perguntar. Contraí esse defeito aquando das minhas conversas com
alunos da Ponte, partindo de clássicos questionamentos:
“O que queres saber? O que queres ser? Com
queres aprender?”
A resposta à última das perguntas era a mais
difícil de dar. Ensaiamos a sociometria, identificamos “rejeitados”, demos a
escolher o tutor...
Somente nos foi possível identificar a
“técnica eficaz e eficiente” de instalar um bom clima de escola, quando um
realizador de cinema se interessou pelo que na Ponte se passava.
Quando chegou à escola, acompanhado da sua
equipe, brincou, entoando a adaptação de uma velha canção:
“É uma escola muito engraçada, não tem teto, não
tem turma, não tem aula, não tem nada...”
Era assim que o mito se constituía. Todo
mundo falava daquilo que a Ponte não tinha. Mas... o que teria? Qual o “segredo
oculto”, a explicação de um clima de escola tão tranquilo, tão cooperativo,
gentil...?
Terminada a recolha de imagens, o realizador
pediu-me para o assessorar na montagem do filme. Logo no primeiro dia,
descobrimos o “segredo oculto”.
Parou o filme num fotograma que mostrava um
aluno levantando o braço. Mostrou-me outro fotograma, no qual eu me sentava
junto desse aluno. Um pouco mais adiante, em outro fotograma, o aluno me
abraçava. Depois, eu pegava a mão do aluno e... com ele conversava – era tão
natural que eu nunca me tinha apercebido dessa “sequência relacional”.
Não havia “segredo” algum. Na Ponte dos anos
70, um sutil processo de humanização tivera início, quando a relação pedagógica
deixou de ser a de um frontal anónimo de sala da aula, para ser um processo de
humanização.
Sombrios tempos se seguiram – boatos,
calúnias e até violência expressa desabou sobre a nossa escola. Num fim de semana,
a televisão transmitiu a reportagem. Quando cheguei à escola, na segunda-feira,
a horta tão bem cuidada pelas crianças estava devastada. O “hospital das
crianças” onde pássaros feridos e animais abandonados eram tratados com desvelo,
extremo cuidado, estava destruído. Malfazejos seres (que de humanos nada
tinham) os mataram. E, com o sangue de vítimas inocentes, escreveram na parede
da escola: “Morte ao professor”.
