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Recife, 20 de setembro de 2044

Querida Alice, No setembro do distante 2024, andei por terras do Nordeste, a convite de uma instituição que eu muito respeitava e que dava pelo nome de SENAC. Aproveitei um tempo de descanso para me encontrar com a minha amiga Christiana e para participar num encontro organizado por outra amiga: a Rosângela.  Em viagem, distante do lugar onde decidira viver, escasseava o tempo para ajudar a resolver problemas, que me chegavam em catadupa. Ora era a Ana, desesperada, porque gente desonesta renunciava a compromissos assumidos e quebrava protocolos assinados, na intenção de destruir o projeto dos seus sonhos. Ora era a Bruna, desesperada, me pedindo para, virtualmente, reunir e resolver problemas vários. Mas aquilo que mais me marcou durante essa viagem foi uma triste notícia, da qual pretendo falar-vos, amanhã. E que tem a ver contigo, querida Alice.  Escolheste ser psicóloga, porque desejavas estudar a mente humana e ajudar a dissipar o medo e os problemas de relacionamento sen...

Santos, 19 de setembro de 2044

Nas praias de Madagáscar vivia um pássaro meigo de nome Dodô. Era uma ave estranha pois, contrariamente a outras espécies, não temia a proximidade dos homens. E, por não os temer, esta espécie foi extinta.  Homens ignorantes e cruéis – que também os havia nesse tempo – divertiram-se a persegui-los e matá-los. Um livro que nos fala das aventuras de uma Alice descreve o paradoxo do pássaro Dodô. Depois do dilúvio causado pelas suas próprias lágrimas, Alice chega a uma praia onde encontra vários animais, todos eles encharcados e com frio.  O pássaro Dodô sugere que façam uma corrida para se aquecerem. Todos começam a correr, cada qual para seu lado, cada qual escolhendo o seu próprio percurso, era fácil ver que todos os percursos eram diferentes.  No final da corrida, todos estavam quentinhos e a salvo. Perguntaram ao pássaro quem teria sido o vencedor. Como cada um correu como e por onde quis, o pássaro Dodô declarou que todos tinham sido vencedores das suas próprias corrid...

Butantã, 18 de setembro de 2044

Sempre andarilhando, na véspera de mais uma viagem ao Nordeste, rumei ao Sudeste do Brasil, mais concretamente ao Butantã de São Paulo.  Com a minha amiga Rosely e uma extraordinária equipe, no início da primeira década deste século, ajudei a mudar as práticas de uma escola. Vinte anos depois, voltava à “Amorim Lima”, pela mão da Mãe Marcela.  Reencontrei a minha amiga Ana, que me apresentou a Patrícia, a Lorena e outras maravilhosas educadoras. Ali deixei o convite para a retomada de um projeto, que muito tinha evoluído em duas décadas de grandes transformações. Tempos atrás, questionastes o fato de, frequentemente, eu mencionar nestas cartinhas nomes e mais nomes, e me pedistes que vos explicasse o porquê desse hábito epistolar. Pois bem! Vos satisfaço a curiosidade. Ítalo Calvino imaginou Marco Polo descrevendo perante Kublai Kan uma ponte, pedra a pedra. Marco Pólo insistia na ideia de que a ponte não era sustida por esta ou por aquela pedra, mas pela linha do arco que ela...