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Itanhaém, 21 de novembro de 2044

No início deste século, a Ponte recebia milhares de visitantes. Oriundos de muitos países e continentes, a curiosidade os impelia a percorrer o mesmo itinerário do meu amigo Rubem Alves. O Rubem fora em busca da escola com que sempre sonhou, sem imaginar que pudesse existir. E a encontrou.  Diz a sabedoria popular que “santos da porta não fazem milagres” e que “ninguém é profeta na sua terra”. Talvez por isso, raros eram aqueles professores que, sendo portugueses, visitassem… aquela portuguesa escola. Entre os raros visitantes lusos, alguns captaram e adotaram o “espírito da Ponte”. O meu amigo António foi um deles. Após a visita, esse excelente educador tomou a decisão ética de mudar a sua prática, para que todos os seus alunos pudessem aprender. E adentrou a via-sacra dos disruptivos. Numa escola sujeita a cartesianas segmentações, o amigo António era professor do “primeiro ciclo”. Com preocupação, via que, quando os seus alunos completavam esse ciclo e transitavam para o seguint...

Vila das Aves, 20 de novembro de 2044

Netos queridos, os meninos e as meninas que aqui vedes são, hoje, idosos na casa dos setenta. Encontrei esta fotografia debaixo do documento de que, ontem vos falei: um “Relatório de Avaliação Externa”. Nesta cartinha vos revelarei alguns excertos do seu capítulo “Conclusões e recomendações”. Tinham passado vinte anos sobre o tempo em que o vosso avô chegara à Ponte. As velhas carteiras tinham sido substituídas por mesas circulares construídas pelos pais dos alunos. E já havia uma equipe – a Luíza a Maria José e eu – agindo em diversos espaços de aprendizagem. O que nos dizia o “relatório”? “Tendo em conta a análise de toda a documentação disponibilizada, assim como através da observação das actividades, quer das reuniões havidas com a equipa docente e com a Direcção da Associação de Pais, a Comissão de Avaliação Externa (CAE) considera poder estabelecer os seguintes pontos fortes:  A filosofia subjacente ao Projecto “Fazer a Ponte”, caracterizada por princípios de desenvolvimento ...

Escola da Ponte, 19 de novembro de 2044

Em 1996, a Ponte fora considerada a escola mais inovadora do país, passando de vinte anos do anonimato a “objeto de curiosidade”. Foi locus de muita pesquisa e de produção de teses. Depois, passou a “objeto de turismo educacional” e de inveja, só por ter mostrado ser possível aquilo que, mais tarde, viria a ser chamado de “educação integral em tempo integral”.  Tendo sido a primeira a concretizar a transição do instrucionismo para uma prática em que o aluno virava sujeito de aprendizagem, assegurou a construção de projetos de vida. A relação entre tutor e aprendiz permitia ir além do domínio cognitivo, sendo plenamente contemplada a multidimensionalidade do ser humano – a afetividade, o emocional, o social, o físico-motor, a estética, a ética, a espiritualidade. A Ponte passou a ser um incómodo para académicos teoricistas e para professores de escolas próximas. Foi caluniada, maltratada, sofreu a erosão de burocratizações várias, mas resistiu.  Achei por bem “desenterrar” um v...