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Lisboa, 18 de abril de 2045

Em meados do mês de abril de 2025, prescindi do aconchego do calor tropical e enfrentei um resto de Inverno europeu. Percorri o país de lés-a-lés naquele que foi o meu derradeiro périplo pátrio. Neste mesmo dia de há vinte anos, me encontrava numa Serra da Estrela coberta de neve. O amigo João e a Mãe Lurdes me equiparam para defrontar a intempérie, e uma Chris esperançosa me acolheu com a tradicional hospitalidade serrana. Fui ao encontro de educadores esperançosos. Ainda os havia, num Portugal que se preparava para ir a votos, numas legislativas fora de tempo. No breve tempo da viagem, li as propostas eleitorais dos partidos políticos. Transcrevo o que um desses partidos propunha na área da Educação, algo novo (os restantes quedavam-se pela mesmice habitual): “ Para realizar o potencial transformador da educação e construir através dela uma sociedade mais igualitária e promissora, o sistema educativo necessita ele próprio de ser transformado, preparando melhor as crianças e jovens pa...

Ilha dos Tigres, 17 de abril de 2045

A segunda guerra acabara há meia dúzia de anos. A fome, a tuberculose, a miséria alastravam no Portugal de Salazar. A Escola do livro único acolhia aqueles que escapavam ao duro trabalho infantil. E o professor Cassiano gritava a plenos pulmões: “Vá lá! Todos em fila! Miguel, põe-te quieto! Endireita-te! Peito para fora! Vá! Caladinhos! Sentido! Marchar! Um, dois, um, dois, um, dois...” “Somos pequenos lusitos, mas já firmes e leais. Amamos e respeitamos nossos chefes, nossos pais...” – e, mal se dissipavam os ecos dos hinos da ditadura e se baixava o braço da saudação fascista, logo vinha a sequência  didática: “Pai nosso, Ave-maria, Salve-rainha… Leitura, Cópia Ditado, Redação (intervalo) Contas, Problemas, Correções, reguadas (a que, ironicamente, chamavam “bolos”). No Portugal democrático, já não se cantava o hino e quase não havia castigos corporais. Mantinha-se a “sequência didática” travestida de aulas invertidas, enfeitadas de power point. E, em muitas escolas, a fila, os g...

Montemor, 16 de abril de 2045

Como vistes nas últimas cartinhas, os meus amigos pensavam bem e escreviam bem melhor, em teoria. Mas, qual seria o “caminho” da prática? Me remeti para o “caminho das pedras da Ponte”, um caminho seguro que, percorrido, se constituiria numa base de novos caminhos. No abril de vinte e cinco, a Escola do velho modelo educacional debatia-se com fenómenos emergentes do tempo do digital, reagindo como aprendiz de feiticeiro. Dever-se-ia proibir o uso do celular em sala de aula? Iria suster-se a injeção de dispositivos-paliativos, ou criar um modelo educacional que integrasse tecnologias efetivamente úteis? Percebemos que um dos maiores problemas que enfrentávamos era a dependência de prazer instantâneo desenvolvido nas cabecinhas juvenis, profundas distorções da realidade, limitando o desenvolvimento da cognição.  Necessário se mostrava ajudar os jovens a saber utilizar instrumentos de recolha de informação e comunicação, a saber utilizar a IA, para não serem utilizados por ela. Do mod...