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Valinhos, 21 de abril de 2044

Gosto de ver nascer o sol, um dos momentos de diário convivo com o sagrado. Hoje, ao contemplar o nascer do sol e os pássaros ocupados na costumeira azáfama matinal, recordei outra manhã, uma manhã radiosa, que coloriu de esperança tempos sombrios de 2001.  O meu amigo Rubem Alves passava alguns dias na minha casa. E, mais uma vez, o levei a visitar a Escola da Ponte. Pelo caminho, fomos escutando um concerto para piano. Estacionei o carro junto à escola, mas dele não saímos. Após escutarmos o segundo andamento, u m reverente silêncio se instalou em nós. Ao meu lado, visivelmente, emocionado, o Rubem enxugava furtivas lágrimas.  Emocionado já eu o vira, nas nossas visitas ao seu sítio de Pocinhos de Rio Verde e a Valinhos. Nessas viagens, era o Rubem quem dirigia. E, sempre que ele parava a viatura, eu sabia que isso se devia a ter surgido a visão de um ipê. Quando perguntaram a uma criança quem tinha sido Rubem Alves, a criança respondeu:  “ O Rubem era um homem que gost...

Itapoá, 20 de abril de 2044

Ao passar pelo local onde, há vinte anos, existia a Escola Zilda Arnes, lembrei-me da minha amiga Carol, que nela semeou humanização. Esses eram tempos de confinação de crianças em prédios a que chamavam “escola”.  Arquitetas de novos tempos, a Carol e a Marina repensavam o papel da escola e se preparavam para ressignificar espaços de aprendizagem no Paranoá e no Itapoá, de modo a que a instituição cumprisse a sua missão de produzir conhecimento e de reelaborar cultura, em diálogo com outros lugares de criação cultural.  Na semana anterior e na Itália, o arquiteto do Centro Cultural de Belém, o criativo Vittorio Gregotti, fora a primeira vítima ilustre da covid-19. Em 2019, nesse CCB se havia reunido um grupo de educadores, que buscavam alternativas à escola-prédio. E, no mês de março de 2020, com o alastramento da pandemia e talvez não por coincidência, as escolas-prédios viraram desertos.  Os jovens residentes em condomínios passavam os dias no interior das suas casas, ...

Sepetiba, 19 de abril de 2044

A leitura da vossa última carta deixou-me a impressão de que podereis considerar-me um pessimista. Não penseis, queridos netos, que eu o seja. Mas, também nunca fui otimista. Aliás, o amigo Rubem dizia-me que o educador não é um otimista, é um esperançoso, porque o otimismo é da natureza do tempo e a esperança é da natureza da eternidade. Aquilo que ousemos fazer repercute-se por décadas.  Já vos falei de amigos meus, mas, nunca será demais evocar extraordinários seres humanos, de educadores amorosos, que me foi dado conhecer. Sobretudo, quando observava a obra que ele nos legaram. No tempo da primeira pandemia deste século, quando se anunciava o fecho de fronteiras, um amigo esperançava:  “ Se o meio ambiente não une os povos, nada como um vírus para lembrar que não existem fronteiras e que somos todos moradores da mesma casa.” O Torga havia dito o mesmo, mas em verso, há quase um século: de um lado terra / do outro lado, terra / de um lado, gente / do outro lado, gente .” Pa...