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Atibaia, 21 de agosto de 2044

Há uns vinte anos, a humanidade começou a entender a dimensão de um ecocídio. Nevava no deserto, fazia calor na Sibéria. O fogo dizimava a floresta amazônica e a australiana. O velho modelo educacional seria causa primordial da previsível extinção da espécie? As tecnologias digitais de informação e comunicação constituíam-se em novas panaceias, que prolongavam a agonia de sucedâneos do modelo educacional lancasteriano, que Bolívar e Santander tinham introduzido na América Latina, há duzentos anos. Aulas híbridas ou invertidas, lousas digitais e power point disfarçavam o drama educacional. Foi por essa altura, que um estudo realizado numa universidade australiana concluiu que utilizar um auxílio visual igual ao que estava sendo falado, ao contrário do que se imaginava, não facilitava a compreensão.  Outro estudo, feito por pesquisadores da Universidade de Harvard, afirmava que não havia um propósito de existência do power point. Isso, porque eles descobriram que o grau de satisfação...

Fercal, 20 de agosto de 2044

Viva o Enarc! Viva a Educação! – assim aqueles educadores se despediam de um lugar onde eu descobrira que havia ipês de flor verde, o verde de uma esperança renovada, reafirmada: “Voltei muito abastecida para enfrentar com amor as nossas dificuldades. Revi pessoas queridas, conheci pessoas que exalam generosidade em estado puro.”  Mas, o dia seguinte ao do fim do encontro dos RC, o amigo Conrado desabafava: “Hoje tive um dos dias mais desafiadores da minha vida na escola. Não fossem esses dias da semana passada e eu não saberia mensurar o desfecho, mas ouso dizer que, na melhor das hipóteses, desistiria da educação.  Gratidão eterna à essa rede e a cada um que ancora em si um nodo dela.” Acordavamos para as más notícias, ainda que a energia acumulada no encontro servisse de lenitivo. E a mensagem recebida do meu amigo me fez regressar a um mês de maio em que a América Latina passara a ser o epicentro da pandemia.  A i nterrupção de serviços sociais contribuía para o agra...

Ingá, 19 de agosto de 2044

Talvez estejais recordados de vos ter falado da ameaça recebida pelo pai de uma aluna. Um professor reencaminhara “algumas palavras da subdiretora”, relembrando que “ os alunos eram obrigados ao cumprimento das atividades propostas para as sessões síncronas e assíncronas”.  Quando algum aluno não estava contatável, a direção enviava uma carta registada com aviso de recepção ao respetivo encarregado de educação. Acaso a carta fosse devolvida, uma informação seria enviada às autoridades competentes, para que a família fosse questionada. Era admirável o zelo legalista dos guardiães de um obsoleto modelo da ensinagem. E indisfarçável o seu autoritarismo.  Durante a primeira das pandemias, eu admirava o esforço dos professores, procurando não perder o contato com os seus alunos. Mas havia quem obrigasse os alunos a vestir uniforme, durante as aulas virtuais. Outros “marcavam falta” a quem desligasse o computador. Havia, também, quem fizesse a “chamada”, ou estabelecesse um horário ...