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Lubazim, 22 de janeiro de 2045

Tendo sido a primeira a concretizar a transição do instrucionismo para uma prática em que o aluno virava sujeito de aprendizagem, a Ponte assegurou a construção de projetos de vida. A relação entre tutor e aprendiz permitia ir além do domínio cognitivo, sendo plenamente contemplada a multidimensionalidade do ser humano – a afetividade, a emocional, a social, a físico-motora, a estética, a ética, a espiritualidade. Na década de setenta do século passado, já se praticava a Educação Integral que, meio século mais tarde, viria a ser mais um sazonal objeto de especulação teoricista, contribuindo para a manutenção de anacrónicas práticas, de que vos dou alguns tristes exemplos. Numa escola considerada por teoricistas como “inovadora”, um diretor lidava com  um protesto de pais contra uma “turma mista”,  uma turma constituída por alunos do primeiro e do segundo ano – nesse tempo, as crianças eram repartidas por cartesianos segmentos a que davam o nome de “ano de escolaridade”, vá-se ...

Calçada do Alto da Canarista, 21 de janeiro de 2045

Muito mais teria a dizer, mas receio cansar-vos com estórias feitas de malefícios e indignação, pelo que me quedei por uma súmula do que mais significativo aconteceu, até 2003. Como previu Rubem Alves, em 2004, o Ministério da Educação “se rendeu”. E a Ponte celebrou com o ministério um contrato de autonomia pioneiro.  Entretanto, a lei da autonomia foi revista, abastardada. E a Ponte passou a ser um incómodo para académicos teoricistas e para professores de escolas próximas. Foi caluniada, maltratada, sofreu a erosão de burocratizações várias, mas resistiu.  Em 2012, a ministerial prepotência descaracterizou a autonomia conquistada, desrespeitou as decisões de uma comunidade, descumpriu o contratado. O Projeto Fazer a Ponte foi desenraizado, sofreu o exílio, foi metido numa “gaiola dourada”, na margem hostil de um rio, que separava culturas tradicionalmente (e infelizmente) inconciliáveis. Desde então, foi sofrendo o desgaste da resignação e deixou de ser, verdadeiramente, um...

Alto da Bandeira, 20 de janeiro de 2045

Encerro esta sequência de cartas-memórias com dois exemplos de mensagens de apoio recebidas por setembro de 2003. “Tive o privilégio de conhecer o funcionamento da Escola da Ponte e alguns dos seus professores. Muito me tenho inspirado no que lá se faz. Este projeto não pode acabar. Convido as pessoas a visitar a escola, e, posteriormente, a ajudá-la a sobreviver a esta «casmurrice ministerial», porque este problema não se resume à «maçaneta da porta da sala 25» de uma escola qualquer, tal como o afirmou um deputado, o qual, definitivamente, não frequentou a Escola da Ponte, porque a sua cultura democrática não se reduziria a um «espírito de carneirada», desprovido de conhecimento de causa e reflexão sobre a mesma” (Susana). "Quais as razões pelas quais as nossas escolas não funcionam com a qualidade desejada?". Esta questão se encontra intimamente ligada à problemática atual da  Escola da Ponte . Como as pessoas sabem, esta é uma escola com um projeto educativo ambicioso, e ...