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Postagens

Ponta Negra, 17 de fevereiro de 2045

“NINGUÉM LARGA A MÃO!” - esse era o grito feito de medo, que ecoava nos barracos improvisados onde funcionava o Curso de Ciências Sociais da USP, num tempo de ditadura. Durante a noite, quando as luzes das salas de aula eram repentinamente apagadas, os estudantes buscavam as mãos uns dos outros e se agarravam ao pilar mais próximo. Quando as luzes se acendiam, faziam uma chamada entre eles. Muitas vezes, acontecia de um colega não responder. Já não estava entre eles. Estava sozinho. “Todos irmãos!”  – Era assim que Francisco nos convidava, através de um singelo apelo, a assumir esse grande princípio dos Direitos Humanos:  “Será possível aceitar o desafio de sonhar e pensar uma Humanidade diferente " . Urgia dar forma concreta às palavras do Francisco, porque nos chegavam notícias de uma barbárie generalizada. Mas, a esperança de melhores dias se fortalecia, quando recebia mensagens de educadores, cujos generosos atos contribuíam para o advento de uma “Humanidade diferente”. Er...

Itaipuaçu, 16 de fevereiro de 2045

Queridos netos, embora as próximas cartinhas vos sejam dirigidas, elas reproduzirão algumas das cartas enviadas a milhares de educadores. Ao longo de mais de meio século, o avô Zé havia ajudado esses educadores, sempre que ajuda era pedida. Havia chegado o momento de esses educadores retribuírem solidariedade com solidariedade. Ao longo de todo esse tempo, projetos tinham nascido e perecido. Muitos educadores éticos desistiram de concretizar os seus sonhos. Muitos foram parar no divã do psiquiatra, outros abandonaram a profissão de professor. Alguns tiveram a mesma sorte de eminentes mestres. Pestalozzi foi humilhado. Tolstoi assistiu impotente ao encerramento da sua escola, por ordem do czar. Ferrer, que acreditava ser possível colocar humanidade no ato de aprender e ensinar, foi perseguido e executado, no dealbar do século XX. A ditadura de Salazar perseguiu a Escola Oficina, e Adolfo Lima conheceu as agruras da prisão e do exílio. No século XIX, os ideais  de Zola e de Louise Mi...

Caldas Novas, 15 de fevereiro de 2045

Queridos netos, espero não vos maçar, descrevendo eventos de 2025. Se considerardes que se trata de uma overdose de informação, mudarei de assunto. Combinado? Então, cá vai… Nesse tempo, os governos determinaram proibir o uso de celular em sala de aula, quando necessário seria ensinar os jovens a usar o celular, enquanto instrumento de pesquisa e comunicação. A Internet não era uma ferramenta; era uma sociedade  generosa na oferta de informação . Apenas seria necessário saber o que fazer com ela. Mas,  a maioria dos professores “dava aula” em lousas digitais, em sala de aula e na Internet.   Bastava “clicar” para repetir conteúdo, até que a matéria fosse “transmitida”. As “tecnologias digitais” tinham sido transformadas em panaceias do velho modelo educacional. Serviam para produzir videoaulas, que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade das ditas “novas tecnologias”, acriticamente consumiam, na dependência de vínculos afetivos precários estabelecid...