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Guimarães, 10 de junho de 2045

Nos idos de vinte e cinco, recebi esta mensagem: “Ao fim da manhã, em Guimarães, ouvindo António Nóvoa falar da Escola como um bem público e comum, fomos confrontados, no último dispositivo da sua brilhante intervenção, com George Steiner que nos inquiria: “Como foi possível tocar Schubert pela noite e marchar no dia seguinte, de manhã, para cumprir as ‘obrigações’ no campo de concentração? Nem a grande literatura, nem a música, nem a arte puderam impedir a barbárie total. Chegaram mesmo a ser o ornamento dessa barbárie. Com frequência proporcionaram uma decoração, uma fioritura, uma formosa moldura para o horror. O senhor Gieseking tocou Debussy - de maneira sublime, parece - enquanto na rua se ouviam os gritos daqueles que passavam pelas estações de Munique rumo ao campo da morte de Dachau. Porque é que as humanidades não nos humanizaram? Porque é que a cultura não nos tornou mais humanos?” Sinto-me sempre perturbado perante momentos como este porque acabo de esbarrar, ...

Barra do Garças, 9 de junho de 2045

No tempo de pesadelo de que vos venho falando nas cartinhas mais recentres, eu buscava refúgio na escrita e naquilo que chamei de “partilha de beleza”. Enviava pedaços de “boniteza” a quem as merecia. A beleza está nos olhos de quem vê, nos ouvidos de quem sabe escutar, no coração de quem sente. Naquele tempo, pensar era estar doente dos sentidos. Pensar nos impedia de experienciar o amor e a liberdade, que, juntos, nos conduziam por caminhos da resistência. Sabíamos que a educação era um ato estético e que éramos agredidos pela degradação do sensível. Para não desesperançar ou desistir da vida, valia-nos o concerto dos pássaros, nas suaves manhãs e nos fins de tarde no meu jardim, saboreando o encanto de pequenas coisas, que fazem grandes os dias. A beleza nos salvava. Enfim! A escola precisava sair dela, andar por aí, ver o mundo. Depois, deixar pensar, um pensar colorido com tudo o que cada um trouxer nos olhos, nas lembranças. Sabíamos que uma nova Escola para um novo mun...

Penalva do Castelo, 8 de junho de 2045

O sociólogo Giddens havia dito que, lamentavelmente, eram muitas as tensões que justificavam os “fundamentalistas que afirmavam: só há um modo de vida válido, e os demais têm de sair da frente”. Por altura de vinte e cinco, eu recebia mensagens como aquela que aqui reproduzo. A Adriana, educadora de infância, perguntava: “Pelo que o senhor falou nas lives, vi que estou dando aulas e poucos alunos estão aprendendo. O que realmente gostaria é que todos aprendessem. O que devo fazer para que meus alunos aprendam? Assim respondi: “Foi essa a pergunta que três professores fizeram, há quase cinquenta anos, numa escolinha do norte de Portugal, a primeira a concretizar a proposta escolanovista… e em equipe. Também poderás encontrar as tuas respostas… em equipe”. O que eu pretendia dizer à Adriana era que a profissão de professor não deveria um ato solitário, mas um agir solidário. Em outro e-mail, a Raquel, professora da rede pública, assim dizia: “Sofro de sérias inquietaçõe...