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Flamengo 11 de julho de 2045

E aqui vai a terceira carta. Ainda refere o primeiro dos obstáculos: o próprio professor. Se um professor decidisse reelaborar a sua cultura pessoal e profissional, não haveria mais obstáculos. Por isso, se dizia que a maioria dos professores eram dadores de aula - morriam aos vinte e só eram enterrados aos cinquenta ou sessenta. Eis o que dizia a terceira carta: “Flamengo, 9 de julho de 2025, “Cuida-se do que se trabalha e trabalha-se o que se cuida”,  diria o Erich Fromm. E esse “cuidar” dos outros, ajudando-os a refazerem-se, pressupunha uma responsabilidade voluntária na defesa do respeito por valores e princípios, em “fluxos de cuidado”, agindo em submundos onde “algumas vidas valem menos que outras vidas”.  Buscando um modo de um dador de aula se transformar num professor, elaborei um “decálogo”, que foi referência de vários roteiros de estudo, que me levaram à prática da pesquisa de teoria prudente, para resolver as minhas dificuldades de ensinagem. Por que se aprende? ...

Inoã, 10 de julho de 2045

As cartas, que vos dou a ler, foram escritas no mês de julho de 2025. Transcrevo a segunda das cartas.  Inoã, 8 de julho de 2025 “Carl Jung dissera: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Jung acrescentara a esta citação que o encontro de duas personalidades se assemelhava ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorresse, ambos sofreriam transformação. E eu não deixava de pensar no tempo em que ainda “dava aula”.  Há muito tempo já recusava fazer planejamentos trimestrais, ou semanais, e fazia o meu plano de aula na véspera. Porém, quando, no dia seguinte, eu dava a aula planejada no dia anterior, sentia que não era eu quem ali estava. Na sala de aula o eu-ator representava um papel definido no dia anterior. Eu era um clown, que não geria a imprevisibilidade. Eu não era autêntico. Eu não estava ali, numa relação de inteireza e profundidade. Algo ou alguém estava ausente. A duras pena...

Erechim, 9 de julho de 2045

Trago-vos mais uma carta achada no baú das velharias: Estação, 9 de julho de 2025 Hoje, a notícia irrompeu nua e crua na tela do computador: “Uma criança morreu e pelo menos outras três pessoas ficaram feridas após um ataque em uma escola municipal de Estação, cidade do norte do Rio Grande do Sul. O autor das agressões é um adolescente que teria pedido para entrar no local para entregar um currículo. Ele foi detido em seguida. Vitor, de 9 anos, foi esfaqueado na região do tórax e não resistiu aos ferimentos.  O agressor era um adolescente conhecido na comunidade – “A gente não está só comovido, a gente está apavorada. A gente conhece a família do agressor, tudo gente boa”. O prefeito acrescentou que medidas de segurança em escolas haviam sido reforçadas após o ataque a creche em Blumenau, em 2023, quando quatro crianças morreram. “Por isso que a gente jamais imaginava que alguém da própria comunidade fosse ocasionar todo esse mal que ele ocasionou aqui. A gente não sabe nem o que d...