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Mostrando postagens de abril, 2025

Torres Vedras, 30 de abril de 2045

E lá fui mais uma vez, até junto da Laura e das suas educadoras. Decorria o conclave, para eleição de novo Papa. E não tardou que conversássemos sobre educação… religiosa. O pai do Abel era agnóstico. E, naquele bairro, o seu filho era a única criança não batizada. Chegado o tempo de ir à escola, todo mundo ficou sabendo. Não tardou que o Abel acordasse, a meio da noite, chorando, vendo “o diabo” em pesadelos. Um amiguinho lhe dissera que, como ele não era batizado, quando morresse, iria para o inferno, onde estava o dito… diabo. Na escola da primeira infância, o Abel viu respeitado o seu peculiar estatuto. Era uma escola que acolhia a diversidade (também) religiosa, confessional. Um pai pediu transferência do seu filho para essa escola, alegando que, numa outra, a criança sofrera humilhação por ser uma “criança adventista ” . Perguntei-lhe se conhecia crianças  “católicas”, “socialistas” ou “flamenguistas” . E se não haveria apenas crianças… sem rótulos. Conversamos, de pai p...

Cabo Frio, 29 de abril de 2045

A minha amiga Bianca era exímia na crítica do velho sistema. Comentou um textinho em que usei o termo “hecatombe”, para designar os efeitos da barbárie educacional dos idos de vinte (sugiro acompanhar a leitura com instantes de silencio em memória das vítimas do genocídio educacional): “Hecatombe. A palavra pesava no ar daquela escola como um cadáver insepulto. As crianças a ouviam nos corredores, sussurrada pelos professores de cabeça baixa, gravada nas atas amareladas da diretoria. Seis sílabas que cheiravam a pólvora e terra arrasada. Não era metáfora, era um animal de dentes afiados, escondido sob as pranchetas do Ministério.  Hecatombe é quando o futuro desiste de vir — explicou a professora Mariana ao pequeno Pedro. E por que a senhora não foge? — ele perguntou, segurando um giz roubado como se fosse uma arma. Porque alguém tem que ficar para contar histórias aos bichos — ela respondeu, apontando para as lagartixas, que observavam, imóveis, das rachaduras.   Georges Bast...

Setúbal, 28 de abril de 2045

Em pleno “inferno astral” do completar setenta e quatro voltas em redor do Sol, o amigo João se compadeceu do meu deplorável estado de saúde e me levou a um hospital. Na inação de um leito de hospital, imerso no quotidiano de uma dependência extrema, face a face com a possibilidade de perecer, passa por nós o filme da existência ida e assomam decisões quase irreversíveis, Sem pensar em futuro. Apenas vivendo. Só isso. Sobrou tempo para refletir e passar testemunho. Vida é serviço, mas, como no Eclesiástico, cada coisa no seu tempo. O tempo de conceber uma nova construção social de aprendizagem e de educação já não será o meu tempo. Era chegado o tempo de alcançar o dom do desapego, em recolhimento ativo. Recriei ímpetos e novas propostas. Fiz entrega de projetos em mãos de quem os merecia. Fiquei ajudando quem de mim solicitava ajuda. Só isso. Fraternalmente, definitivamente, convidei e convoquei para transcender uma Escola que, por séculos, fora uma invenção diabólica. Já Férrière o d...

Ponte Nova, 27 de abril de 2045

Em 1976, a Escola da Ponte celebrava 50 anos de vida. No outubro de há 70 anos, o vosso avô atravessava uma crise que quase o levou a desistir de ser professor. Preparava com esmero as suas aulas, planificava-as de véspera, para estar tão próximo quanto possível do momento. Desde há muito tempo, recusara fazer planejamentos trimestrais, ou semanais. Fazia o meu plano de aula na véspera da aula. Porém, quando, no dia seguinte, eu dava a aula planejada no dia anterior, sentia que não era eu quem ali estava. Na sala de aula eu era um clown, um ator representando um papel definido no dia anterior. Tentava gerir a imprevisibilidade, mas não era autêntico. Eu não estava ali numa relação de inteireza e profundidade. Algo ou alguém estava ausente. E, se não estava presente, era comprometida a comunicação, não conseguia criar vínculos, gerar aprendizagem. No outubro de 76, com quatro pais, se operou a passagem de um bolorento magistercentrismo para um precário pedocentrismo. Decorridos cinquent...

Loulé, 26 de abril de 2045

Após uma breve pausa na correria habitual, o reencontro com filho e netos, breve pausa no frenesim pedagógico, para mitigar saudades. Para trás ficavam as comemorações da Revolução dos Cravos. No dia seguinte, viagem para Grândola, a “terra morena” do Zeca Afonso, num evento que o amigo João preparara com esmero. Numa manhã de um domingo primaveril, a Ana e o Gilberto nos apresentaram famílias e professores preocupados com o futuro escolar dos seus filhos e alunos. Nesse fim-de-semana de vinte e cinco, dei- lhes conta de radicais decisões, anunciei=lhes o nascimento de uma nova construção social de aprendizagem. Quase 50 anos eram passados sobre a publicação do livro “A hecatombe escolar” do Georges Bastin. O prefácio assim rezava: "Este livro destina-se a pais ansiosos com as dificuldades que os seus filhos sentem, aos educadores que procuram uma explicação para a mediocridade dos seus alunos e para as suas próprias desilusões e a todos aqueles que se inquietam com as hecatombes ...

Vila Real de Santo António, 25 de abril de 2045

Ficai tranquilos, que não irei dizer-vos o que fiz, nem onde estava, na leda madrugada de 25 de abril de 1974. Falar-vos-ei apenas de um povo, que tinha adormecido fascista, no dia 24, e acordado democrata, no dia 25. E que, por muitos anos, continuaria apático (ou desatento?) face a “tenebrosas tentações”. Durante muitos anos, ensaiei coros de igreja, e até cheguei a cantar sete missas ao domingo... Por essa altura, eu era secretário do Coro da Sé Catedral do Porto, um coro de música sacra, que marcou uma época, dada a sua excelente qualidade. A maioria dos coralistas era de classe social média-alta, vivia em pequenos palácios. Eu vivia na Ilha dos Tigres, um cortiço onde gente digna e de “algumas posses” convivia com toda a sorte de deserdados da vida, onde as pessoas mais belas que conheci partilhavam o seu quotidiano com a violenta fealdade da prostituição. Operacional da Revolução dos Cravos, saído da clandestina luta contra um salazarento regime, nos ensaios do Coro, conheci a “n...

Fátima, 24 de abril de 2045

Eis-nos, aqui, setenta e um anos após uma  leda madrugada, perguntando por que  razão havia quem não comemorasse o dia do fim da ditadura. Creio ter encontrado um início de resposta durante uma viagem a Portugal. Num encontro com educadores, pedi que não lessem o meu curriculum vitae – era coisa do passado, e de pouca ou nenhuma valia – e que me apresentassem como um designer educacional e um aprendiz de utopias. Netos queridos, estou a “ver-vos” perguntar: a que se deve esse pedido? Vos direi. R ecordo a abertura da Semana da Educação de1998, quando a Escola da Ponte recebeu a visita do Presidente da República. No final do dia, ele apontou como preocupação maior o fato de nem todas as crianças terem acesso a um ensino básico de qualidade. “ A escola e a família são fundamentais para desenvolver a capacidade de intervenção e de influenciar o nosso tempo. Há também responsabilidades sociais, por parte de toda a comunidade. Os problemas da escola resolvem-se dentro e fora dela.”...

Luz de Tavira, 23 de abril de 2045

Sempre que me perguntavam por que trocara a engenharia pela educação, respondia: “Quando decidimos ser professor, fazêemo-lo por uma de duas razões: ou por amor, ou por vingança. Fui para a educação por vingança. Nela fiquei por amor”. Foi pelos meus dezessete que me propus ser missionário. Porém, um súbito exame de consciência me fez mudar de rumo. Para ser missionário, eu precisaria ser casto e humilde... e eu não era uma coisa nem outra – fui para professor. A minha “carreira” de professor foi subitamente interrompida, quando o país precisava de “carne para canhão”. Eram três as frentes da guerra colonial. E, sabendo o regime que o vosso avô era “contra a Ditadura”, fez de um jovem estrábico... um atirador de infantaria. Fracassou a intenção de me fazer morrer em terras africanas. E quem se “vingou” fui eu.  Militar pacifista, no “25 de abril” de 74, vesti farda de combate, para ajudar a fazer a “Revolução dos Cravos”. Educador consciente de que ninguém adormecera “fascista” no ...

Guimarães, 22 de abril de 2045

Duas semanas tinham passado desde o primeiro dos encontros do périplo de vinte e cinco, e o amigo Paulo publicou uma mensagem, começada por uma fala do Mestre Agostinho: "Portugal desembarcou em todo o lado. Só falta Portugal desembarcar em Portugal.” ( Agostinho da Silva, 1961). Agostinho da Silva metaforizava a necessidade de um novo renascimento com o “desembarque” de uma nova Educação no hemisfério norte… proveniente do Sul. Na década seguinte, na “Pedagogia da Esperança”, Freire assumia o compromisso de provar a necessidade de a esperança ter o seu espaço na Educação. E, a partir de angústias e saudades, compreendia ser preciso disciplinar as dores e os sentimentos, para que a desesperança não imperasse sobre a vida humana. Nessa obra, Freire escreveu ser necessário desnortear, desorientar, talvez mesmo… suliar. Tomás Morus escreveu a sua “Utopia” baseado num opúsculo de Américo Vespuci. Talvez seja necessário suliar a busca de novas utopias no Sul. Foi no Sul que Vespuci enc...

Covilhã, 21 de abril de 2045

O périplo português de vinte e cinco passara pela Beira Interior. A Chris e a Shirley me acompanharam à rodoviária, onde um televisor dava uma notícia de “Última Hora”: “Morreu o Papa Francisco”. Toda a aprendizagem resulta da imitação, do exemplo. E o humanista Francisco argentino (e universal) bem o sabia: “Este sistema, com a sua lógica implacável, escapa ao domínio humano. É preciso trabalhar por mais justiça e cancelar este sistema de morte. Esta Economia mata”. João XXIII dissera que a Igreja era o “Povo de Deus em Marcha”. O Papa Francisco nos convidava a reinventar a Escola, a colocar a “Pessoa na Casa Comum”, chamada a viver e a reencontrar o dom da fraternidade, num novo tipo de relação humana a que chamávamos “aprender em comunidade”. Atento à extinção de espécies e à degradação ambiental, asseverou ser necessária uma educação que respeitasse a diversidade e a inclusão. "É necessário acelerar esse movimento inclusivo da educação, para combater a cultura do descarte, cri...

Reggio Emilia, 20 de abril de 2045

No início deste século, o amigo Rubem deu-me a ler um texto, que começava deste modo: "Todas as escolas têm corredores e salas de aula. As salas servem para separar as crianças... Por que é assim? Tem de ser assim? Quem determinou que esses são os saberes e que eles devem ser aprendidos na ordem prescrita? Que uso fazem as crianças desses saberes na sua vida de cada dia? Por que é necessário que todas as crianças pensem as mesmas coisas, na mesma hora, no mesmo ritmo? As crianças são todas iguais? O objetivo da escola é fazer com que as crianças sejam todas iguais? Por que é assim? Para que serve isso? Poderia ser de outra forma?"  Na década de oitenta, Marguerite Yourcenar isto escreveu: "Muitas vezes me perguntei como poderia ser a educação de uma criança. Acho que seria necessário estudos básicos, muito simples, onde a criança aprendesse que existe no universo, num planeta cujos recursos terá que gerir mais tarde, que depende do ar, da água, de todos os seres vivos, e...

Pasárgada, em 19 de abril de 2045

O Rubem interpelava a pertinência de um modelo educacional fóssil, que a Ponte tinha extinguido, há muitos anos, a par de outras oportunas extinções.  Havia passado muito tempo tentando dar início a uma reflexão partilhada sobre novas construções sociais. Porém, o academicismo se manifestava como poderoso obstáculo. Nos idos de vinte, gente que, até então, eu tinha por referência no domínio das ciências da educação, gente que eu estimava e admirava mostrou-se relutante e até agressiva, quando, seguindo o exemplo do amigo Rubem, eu insistia no convite para um debate fraterno sobre a necessidade de mudança. Por que reagiram desse modo? Talvez porque se sentissem incomodados pelo exemplo dado por uma escola, que, buscando coerência, banira o trabalho em sala de aula – os teóricos inspiradores dessa mudança praticavam “educação bancária”, eram teoricistas, freirianos não-praticantes. Porquê? – eu me habituara a perguntar – dirigindo fraternas interpelações a companheiros das ciências d...