Na noite de passagem de ano, o Marcos desfolhava livros como quem lia – o Marcos lia e balbuciava uns sons, só aparentemente, desconexos. Eu, que estou longe de ser um entendido na palavra pura, que ainda confundo uma arenga babélica com a fala transparente, não conseguia traduzir o seu balbuciar. Este avô, ainda que empenhado no desaprender do palavrear adulto, ainda deturpa o verbo virginal, confundindo-o com o linguarejar de adultos tagarelas. Subitamente, o meu neto suspendeu a leitura e fixou o olhar num ponto qualquer, como quem depara com o Aleph. Fiquei a observá-lo, discretamente, para não interromper a absorvente contemplação. Segui a direcção do seu olhar. Fixava-se num dos gestos rituais de passagem de ano, protagonizado por um tio que engolia uvas passas com um semblante demasiado concentrado para quem apenas está ingerindo alimento. Não suspeitava o Marcos, mas estava sendo sujeito a aculturação, ao contemplar um adulto comendo uvas raquíticas e formulando desejos par...