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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Itapuã, 31 de dezembro de 2045

Na noite de passagem de ano, o Marcos desfolhava livros como quem lia – o Marcos lia e balbuciava uns sons, só aparentemente, desconexos. Eu, que estou longe de ser um entendido na palavra pura, que ainda confundo uma arenga babélica com a fala transparente, não conseguia traduzir o seu balbuciar. Este avô, ainda que empenhado no desaprender do palavrear adulto, ainda deturpa o verbo virginal, confundindo-o com o linguarejar de adultos tagarelas. Subitamente, o meu neto suspendeu a leitura e fixou o olhar num ponto qualquer, como quem depara com o Aleph. Fiquei a observá-lo, discretamente, para não interromper a absorvente contemplação. Segui a direcção do seu olhar. Fixava-se num dos gestos rituais de passagem de ano, protagonizado por um tio que engolia uvas passas com um semblante demasiado concentrado para quem apenas está ingerindo alimento. Não suspeitava o Marcos, mas estava sendo sujeito a aculturação, ao contemplar um adulto comendo uvas raquíticas e formulando desejos par...

Brasília, 30 de dezembro de 2045

O 2025 não terminou sem que mais um disparate legalista fosse produzido por gente para quem as ciências da educação eram ciências ocultas, mas que detinham poder para parir pedagógicos disparates – a Comissão de Educação da Câmara aprovou um projeto de lei que  proibia a chamada “aprovação automática” nas escolas brasileiras , proibindo algo que nunca chegou a existir: a prática da “progressão continuada”. O Parágrafo 2º, art. 32 da Lei nº 9.394 – Lei De Diretrizes E Bases Da Educação Nacional, de 20 de dezembro de 1996 – estipulava: “os estabelecimentos que utilizam progressão regular por série podem adotar no ensino fundamental o regime de progressão continuada, sem prejuízo da avaliação do processo de ensino-aprendizagem, observadas as normas do respetivo sistema de ensino”. Porém, que eu saiba, nenhuma escola praticou a dita ”progressão continuada”. Esse regime de avaliação pressupunha profundas mudanças na organização do trabalho escolar, o que não aconteceu. Por exemplo, ...

São Braz de Alportel, 29 de dezembro de 2025

Assim falava um visitante da Ponte: “Qual o segredo das escolas que fazem diferença, das escolas que conseguem avançar substancialmente na aprendizagem efetiva, no desenvolvimento humano pleno e na alegria crítica de seus alunos? É certo que tudo está relacionado, que devemos considerar os vários aspetos da   realidade escolar etc. Porém, não haveria alguns elementos essenciais, substanciais, nucleares, sobre os quais deveríamos colocar nossa atenção de forma muito especial? O que é mais importante? Já que os recursos materiais e psíquicos são limitados, onde investir prioritariamente? Muito sinteticamente, diríamos: pessoas e estruturas, estruturas e pessoas (repetimos os termos em ordem inversa para evitar escapismos dualistas). O “segredo” da Ponte está nas pessoas com uma nova sensibilidade, com um novo olhar sobre os alunos, capazes de construir novas estruturas escolares. Simultaneamente, está nas estruturas, na capacidade de reinventar a organização dos espaços, ...

Embu, 28 de dezembro de 2045

Nos idos de 25, quase não existia avaliação nas escolas. Nelas, os professores (e ministérios) confundiam avaliação com classificação ostracizando a avaliação que a lei prescrevia. Também no domínio da avaliação, se agia à margem da lei. Um ministro de má memória introduziu mais exames no sistema na expectativa da sua melhoria – os “especialistas” sabiam que os exames quase nada avaliavam, mas se calavam. Os testes eram os instrumentos de avaliação falíveis. Conceber itens de testes, garantir fidelidade e tudo mais eram um exercício extremamente rigoroso, assim como assegurar que as condições seriam as mesmas para todos, quando se aplicasse testes. E a correção de um teste também padecia de enorme subjetividade. Além disso, esses instrumentos de avaliação apenas “provavam” a capacidade de acumulação cognitiva, de armazenamento de informação em memória de curto prazo, para debitar num exame e… esquecer. Em muitas escolas aplicava-se teste e se “dava nota” a partir dos resultados...

Inoã, 27 de dezembro de 2045

Em Portugal, diretores de escola reconheciam que “ a retenção não resolvia o problema do insucesso” e o Conselho Nacional de Educação recomendava o fim das reprovações. O estudo "Retenção Escolar no Ensino Básico em Portugal" concluía que os alunos que reprovavam não retiravam qualquer benefício de terem ficado retidos. Ao “repetir o ano”, os resultados eram os mesmos ou inferiores aos do ano anterior. A Comissão Europeia criticava a "cultura da retenção", afirmando que a “bomba" brasileira e o “chumbo” português deveriam ser substituídos por respostas ao que designavam por “dificuldades de aprendizagem”. Um especialista corroborava esse parecer, acrescentando que era o modelo de ensino que promovia o insucesso: “ Estamos a preparar os alunos da mesma forma que preparávamos há cinquenta, ou cem anos, baseando o ensino exclusivamente na capacidade de reproduzir conteúdo. Ensinamos tudo a todos da mesma maneira e ao mesmo tempo, o que já não faz qualquer sen...

Vale das Pedrinhas, 26 de dezembro de 2025

Na avaliação que ainda vamos tendo por hegemónica, é bem visível a ancestral prática seletiva. O ensino em massa é coerente com uma avaliação em massa. Os professores lamentam o dispêndio de tempo posto na correção de exames e alegam que o ministério os explora como mão-de-obra barata. O ministério, por sua vez, gasta fortunas em comissões a quem compete elaborar os testes e coordenar o serviço de exames, em viaturas e seguranças que transportam envelopes lacrados como se fossem as jóias da coroa. Se outra razão não houvesse para acabar de vez com exames, uma razão se imporia – associada à ideia de exame há sempre a probabilidade de utilização de “copianços” (a “cola” e a “pesca” brasileiras). Para cada sala de exame que se preze, são escalados professores que, supostamente, são o garante de que os examinados não “copiam”. Os “vigilantes” partem do pressuposto de que todo o aluno é, até prova em contrário, potencialmente desonesto – haverá princípio mais antipedagógico que este? ...

Belém do Pará, 25 de dezembro de 2045

Na véspera do Dia de Natal de há vinte anos, quebrei uma tradição de décadas: não enviei mensagens celebrando o nascimento de um Menino, cujo Pai condenou à morte, para remissão dos nossos pecados. No dia seguinte, com familiares e amigos partilhei a celebração da Vida Daquele que anunciou o Advento de tempos novos, feitos de fraternidade. Ontem, ao v asculhar velhos cadernos, encontrei notícias de primeira página de jornais de um distante Natal: “Menina abusada e morta por padrasto”. “Condenado a 18 anos de prisão por crimes de abuso e violação de enteada”. “Mulher suspeita de espancar filha de 3 anos é presa”. “Jovem tenta matar amigo a pedradas por ciúmes da própria mãe”. Professora contou que uma vizinha a chamou de "preta nojenta". “Mulher é libertada após viver em condições de escravidão”. “Presépio brasileiro mostra Menino Jesus negro em uma Amazônia devastada, um bebê negro, filho de uma virgem negra, rodeado de querubins indígenas”.  A OMS avisava: ...

Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 2025

No tempo da proto-história da Educação, bom senso nem sempre era sinónimo de juízo. Como em tudo o resto, supunha-se que no reino da Educação assim fosse, que prevalecesse o bom senso, o senso crítico. Porém, parecia predominar o mais elementar senso comum. Num jornal diário, li esta notícia: “Professores, pais e estudantes do Rio de Janeiro protestaram contra a resolução da Secretaria Municipal de Educação, que acabou com os conceitos de “ótimo” e “insuficiente” na avaliação dos alunos do Ensino Fundamental. Com isso, os estudantes da rede municipal não podem mais ser reprovados. O Sindicato dos Profissionais de Educação do Rio vai entrar com ação no Ministério Público para revogar a decisão”. Como sindicalista, senti-me traído. Como professor, envergonhado. Não seria fugindo para a frente que se conseguiria valorizar a imagem social da profissão, mas encarando os desafios. A resolução chegava fora de tempo, era mera distração de políticos, mas os professores não deveriam “dei...

Cacique Cobra Coral, 23 de dezembro de 2045

Não resisto a recuperar uma cartinha escrita, há alguns anos, para falarmos de… Avaliação. A pergunta surgiu bem maliciosa: “Na sua escola, não fazem avaliação?” Respondi que fazíamos avaliação, mas que não aplicávamos o instrumento de avaliação “prova”, porque a prova pouco ou nada provava. As “provas” foram prodigamente utilizadas até meados da década de trinta, embora os sistemas de ensino que as utilizavam não lograssem melhorar a aprendizagem. Reconhecidas como precários instrumentos, quase inúteis e até mesmo prejudiciais, desapareceram, para dar lugar à avaliação formativa, contínua e sistemática. A prova não era formativa, nem contínua, nem sistemática. Era perda de tempo e origem de sutis corrupções. Medir não era sinónimo de mais qualidade no ensino. Muitos alunos chegavam ao ensino médio incapazes de fazer uma interpretação de texto, apenas 15% dos titulares de diploma de Direito conseguiam aprovação no exame da Ordem dos Advogados, mas havia uma crença ingénua na...

Recanto, 22 de dezembro de 2025

Os disparates se extremavam. Um secretário de educação era perentório: “ Rede de ensino terá a aprovação continuada em todas as séries”. Um político demagogo assegurava: “Se for eleito, irei acabar com a aprovação automática” Encarei a hipótese de se tratar de mais algumas “fake news”. Fui confirmar – eram mesmo disparates, referências a algo que jamais fora legislado, leviandades. Outra notícia dava conta de que “t odo aluno que tivesse feito atividades seria aprovado para a próxima série”. A rede estadual de ensino “teria  progressão continuada  em todas as séries, para os estudantes que tivessem feito alguma atividade letiva” (sic). Aliás, já não era novidade municipal, pois a estapafúrdia proposta já fora aprovada pelo Conselho Estadual. Estudantes que não tivessem feito  nenhuma atividade  seriam convocados para “recuperação presencial”. Em outros locais, as autoridades também “ decidiram suspender a reprovação de alunos, por novas políticas de ava...

Aldeia Mata Verde Bonita, 21 de dezembro de 2025

O prometido é devido – as próximas cartas farão a avaliação da “avaliação” que por aí se vai fazendo. Numa Mostra de Projetos, um secretário de educação aludiu a um entretenimento de teoricistas ociosos e políticos boçais: o da “aprovação automática”. Concluiu o discurso dizendo que deveria haver “uma terceira possibilidade de avaliar entre a aprovação automática e a reprovação automática”. Na posição de observador atento, iria aferi-la, tendo por referência um artigo do Mestre Pedro: “Abordo a proposta do processo formativo sem cronometragens artificiais em anos, séries, ciclos. A mania de cronometrar processos não físicos, como aprendizagem, é resquício positivista instrucionista, que recua à gestão “científica” de Taylor, quando cronometrou, tintim por tintim, processos produtivos e modos de os agilizar.” Assisti a inúmeras campanhas eleitorais imersas na costumeira mesmice das promessas já prometidas e disparates proferidos por candidatos. Não me intrometeria nas contendas,...